É importante diferenciar a anemia no climatério dos sintomas hormonais comuns nessa fase da vida
Vanessa Kopersz* Publicado em 09/07/2026, às 06h00

Um número crescente de mulheres enfrenta fadiga severa durante a menopausa, com a anemia sendo uma das principais causas, além da baixa hormonal. Essa condição pode resultar em sérios impactos na qualidade de vida, confundindo-se com outros sintomas da menopausa.
As causas da anemia incluem perdas sanguíneas durante a transição menopausal, pólipos e miomas, além de fatores como dietas restritivas e uso de medicamentos que afetam a absorção de nutrientes. A deficiência de ferro é particularmente preocupante, com valores de ferritina abaixo de 50 ng/mL exigindo atenção médica.
O tratamento da anemia envolve a correção da deficiência de ferro, ajustes na alimentação e, em alguns casos, a administração de ferro endovenoso para evitar efeitos colaterais do tratamento oral. A abordagem deve ser individualizada, considerando a origem da anemia e os sintomas da menopausa.
Cada vez mais mulheres relatam que sofrem de uma fadiga incapacitante na menopausa. Além da baixa hormonal, que pode contribuir bastante para o quadro, a anemia é também identificada como causa do cansaço. Mas por que a falta de ferro atinge tantas mulheres no climatério?
“A anemia na menopausa não deve ser vista como normal. As causas mais comuns são deficiência de ferro por perdas sanguíneas, aumento do volume ou irregularidade do sangramento menstrual que são frequentes da transição menopausal, além de pólipos, miomas e adenomiose, condição benigna onde o endométrio, tecido que reveste o interior do útero, cresce dentro da parede muscular do órgão”, explica a Dra. Karen Abrão, ginecologista, especialista em Ginecologia e Obstetrícia pela FEBRASGO e pela Associação Médica Brasileira (AMB).
A Dra. também explica que podem haver outras causas clínicas, como sangramento do aparelho digestivo, baixa ingestão de ferro ou má absorção de nutrientes. Também entram no diagnóstico diferencial deficiência de vitaminas do complexo B, doença renal, inflamação crônica e doenças hematológicas.
Outro fator bem relevante: os sangramentos uterinos na perimenopausa sempre foram uma causa de anemia e baixa reserva de ferro. “Porém hoje provavelmente investigamos mais essas razões, e além do quê, as mulheres chegam à menopausa usando mais medicamentos que interferem na absorção de nutrientes, como anti-inflamatórios e inibidores de acidez gástrica, como o omeprazol. Também temos mais pacientes com cirurgias bariátricas, dietas restritivas, principalmente com redução do consumo de carne e distúrbios intestinais. Mas isso não necessariamente tem a ver só com a perimenopausa. Muitas vezes é uma deficiência que ficou anos se acumulando”. O consumo de carne vermelha, aliás, é fundamental: recentemente, depois de anos, a top model Gisele Bündchen voltou a comer esse tipo de alimento pois justamente apresentou quadro de anemia, aos 45 anos.
A ferritina é uma proteína produzida principalmente pelo fígado cujo papel principal é armazenar o ferro dentro das células. Ela funciona como a “poupança” de ferro do organismo, liberando o mineral conforme o corpo precisa para produzir hemoglobina (que transporta oxigênio no sangue). Um valor de ferritina abaixo de 20 ng/mL confirma que o estoque de ferro está muito baixo. Mas na prática clínica, valores abaixo de 50 ng/mL já merecem atenção. Ferritina “normal-baixa” pode não ser suficiente para uma mulher sintomática. “Também existe o valor normal na referência do laboratório e o valor ideal que estabelecido na avaliação clínica, considerando todas os fatores para cada paciente”, explica a Dra. Karen.
A anemia no climatério pode causar uma série de incômodos: fadiga, queda de cabelos, falta de ar aos esforços, palpitações, tontura, dor de cabeça, piora de desempenho físico e cognitivo, unhas frágeis e maior sensação de exaustão. Na peri e na menopausa, isso pode ser confundido com sintomas hormonais como a ansiedade e a depressão, atrasando o diagnóstico certo.
Cuidado: a fadiga comum do climatério tem um tratamento bem diferente do cansaço da anemia: primeiro, é preciso identificar a causa da baixa de energia. “Não adianta tratar só com estimulantes ou hormônios se existe anemia ou deficiência de ferro. A melhora vem de corrigir o ferro, investigar a origem da perda, ajustar sono, alimentação, atividade física progressiva, proteína adequada e tratar sintomas da menopausa quando presentes. Quando a anemia é importante, a reposição correta pode fazer enorme diferença”, crava a ginecologista.
Indiretamente, a oscilação hormonal causa a anemia, sim. “Na perimenopausa, a oscilação de estrogênio e progesterona pode causar ciclos irregulares e sangramentos mais intensos, o que aumenta a perda de ferro. Além disso, sintomas como insônia, ondas de calor e piora de humor podem aumentar a percepção de fadiga. Mas a deficiência de ferro em si não deve ser atribuída apenas aos hormônios”, explica a médica.
E o que comer, para sair desse quadro? As melhores fontes são carnes, especialmente carne vermelha magra, fígado em situações selecionadas, aves, peixes e frutos do mar. Feijões, lentilha, grão-de-bico, tofu, sementes, castanhas e vegetais verde-escuros ajudam, mas o ferro vegetal é menos absorvido. Combinar alimentos ricos em ferro com vitamina C, como limão, laranja, acerola ou kiwi, melhora a absorção. É recomendado evitar: café, chá, cálcio e leite junto das refeições, porque eles podem reduzir a absorção do ferro.
Infelizmente, o ferro oral frequentemente causa náusea, constipação, dor abdominal, o que muitas vezes diminui a adesão ao tratamento. A aplicação endovenosa repõe o ferro de forma mais rápida e evita esses efeitos colaterais. Outro ponto é a interferência do ferro oral com a microbiota intestinal, porque o ferro em cápsulas em uso prolongado pode piorar disbioses intestinais. Mas não devemos banalizar: medicação endovenosa, como o Noripurum, precisa de indicação médica, cálculo de dose e aplicação em ambiente adequado.
Em muitos casos, usar ferro oral em dias alternados melhora tolerância e absorção. “Porém, é sempre bom lembrar que suplementos não substituem investigação quando a ferritina está baixa ou há anemia”, finaliza a Dra. Abrão.
* Vanessa Kopersz é jornalista.
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