Descubra como trabalhar o carnaval na escola pode valorizar a cultura popular negra e promover a educação antirracista
Tatiane Santos* Publicado em 16/02/2026, às 06h00

O carnaval deve ser integrado ao cotidiano escolar como uma expressão cultural e histórica, reconhecendo seu papel na formação da identidade brasileira e valorizando a contribuição da população negra.
O carnaval é resultado da fusão de diversas culturas, com forte influência da cultura negra, que se tornou um espaço de resistência e afirmação durante períodos de opressão.
Para promover uma educação antirracista, as escolas devem adotar práticas que vão além de atividades superficiais, como pesquisas e contação de histórias sobre figuras importantes do carnaval, garantindo que a cultura seja vivida e respeitada ao longo do ano.
Falar de carnaval na escola exige deslocar o olhar. Não se trata de uma simples data no calendário pedagógico, nem de um momento isolado para fantasias e músicas infantis desconectadas de sentido. O carnaval é uma das maiores expressões da cultura popular brasileira — viva, pulsante, coletiva — e, justamente por isso, precisa estar presente no cotidiano escolar como experiência cultural, histórica e política.
Quando a escola compreende o carnaval para além da lógica das “datas comemorativas”, ela assume seu papel formador: apresenta às crianças as raízes do país, valoriza saberes historicamente invisibilizados e reconhece o protagonismo negro na construção da identidade brasileira.
O carnaval brasileiro nasce do encontro de muitas matrizes culturais — africanas, indígenas e europeias — mas é fundamental reconhecer que sua força estética, musical e organizativa foi profundamente marcada pela população negra.
Nos terreiros, nos quintais, nas ruas e nas rodas de samba, o carnaval se construiu como território de resistência cultural. Durante períodos em que corpos negros eram sistematicamente silenciados, a música, a dança e os cortejos tornaram-se linguagens de afirmação de existência.
Por isso, trabalhar o carnaval na escola também é trabalhar memória social. É ensinar às crianças que cultura não surge do nada — ela é construída por pessoas reais, com histórias, lutas e legados.
Trazer o carnaval para a escola na perspectiva de uma educação antirracista significa nomear seus protagonistas. Significa contar às crianças quem abriu caminhos para que hoje existam desfiles, blocos e escolas de samba.
Cartola, um dos maiores compositores da música brasileira, ajudou a fundar a Estação Primeira de Mangueira e transformou o samba em poesia refinada, sensível e profundamente humana.
Pixinguinha, maestro e multi-instrumentista, revolucionou a música popular e ajudou a estruturar sonoridades que até hoje embalam o carnaval.
Tia Ciata, figura central na história do samba, fez de sua casa um verdadeiro quilombo cultural no Rio de Janeiro. Ali, músicos se reuniam, tradições eram preservadas e o samba ganhava forma — mesmo diante da repressão.
Ivone Lara, frequentemente lembrada como Dona Ivone Lara, rompeu barreiras ao se tornar uma das primeiras mulheres compositoras a integrar a ala de compositores de uma escola de samba. Sua trajetória nos ensina sobre talento, coragem e abertura de caminhos para outras mulheres negras.
Quando a escola apresenta esses nomes, ela não apenas ensina história — ela reequilibra narrativas.
Uma educação antirracista não se contenta com atividades superficiais. Em vez de apenas confeccionar máscaras ou promover bailinhos, a escola pode transformar o carnaval em experiência pedagógica potente.
Alguns caminhos possíveis:
Quem foi Cartola? Por que Tia Ciata é tão importante? Onde nasceu o samba? Mesmo as crianças pequenas podem investigar por meio de imagens, músicas, histórias e rodas de conversa.
Ouvir samba de raiz, marchinhas tradicionais e diferentes ritmos carnavalescos amplia repertórios e combate a ideia de que existe apenas um tipo de música válida.
Apresentar a vida desses personagens como histórias inspira pertencimento e cria referências positivas, especialmente para crianças negras.
Que tal organizar um cortejo em que cada turma homenageie um desses grandes nomes? As crianças podem carregar estandartes, criar adereços inspirados nas escolas de samba e desfilar ao som das músicas desses artistas.
Mais do que um desfile, será um ato de reverência cultural.
Outra dimensão importante é reconhecer onde o carnaval acontece: nas comunidades, nos bairros, nos blocos de rua, nas periferias que reinventam a festa todos os anos.
Mapear com as crianças os carnavais do entorno da escola ajuda a construir uma pedagogia do território — aquela que ensina que cultura não mora apenas nos livros, mas também nas ruas por onde caminhamos.
Celebrar o carnaval com consciência é romper com práticas que esvaziam sua origem. É evitar caricaturas, estereótipos e fantasias que reforcem preconceitos. É garantir que as crianças se vejam representadas com dignidade.
Uma escola comprometida com a equidade pergunta sempre:
Quando essas perguntas orientam o planejamento, o carnaval deixa de ser um evento e se torna aprendizagem.
Trabalhar o carnaval como cultura popular também nos ensina algo essencial: cultura não tem data para começar nem para terminar.
Ela pode atravessar projetos, dialogar com música, história, artes, movimento e identidade. Pode inspirar estudos sobre ancestralidade, coletividade e resistência.
Porque, no fundo, ensinar sobre carnaval é ensinar sobre o Brasil.
E talvez o maior compromisso da escola seja este: garantir que cada criança conheça não apenas a festa, mas as pessoas que a tornaram possível.
Assim, quando o cortejo sair pelo pátio — com nomes como Cartola, Pixinguinha, Tia Ciata e Dona Ivone Lara sendo lembrados — não será apenas um momento bonito.
Será um gesto pedagógico.
Será memória em movimento.
Será educação antirracista acontecendo na prática.
* Tatiane Santos é especialista em educação racial infantil e consultora no assunto.
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