Como o princípio Sankofa nos ensina a valorizar nossas raízes e histórias. Artigo da colunista Tatiane Santos
Tatiane Santos* Publicado em 06/01/2026, às 06h00

Em 2026, a proposta é viver um ano Sankofa, que enfatiza a importância de lembrar o passado para construir um futuro digno e consciente, reconhecendo as heranças de luta e sabedoria dos ancestrais.
O conceito de Escrevivência é destacado como uma forma de narrar e transformar experiências em memória, ressaltando a importância de contar histórias e aprender com as vivências coletivas para promover cura e justiça social.
O chamado é para que 2026 seja um ano de encontros e parcerias éticas, onde se busca respeitar as diferenças e evitar a repetição de erros do passado, promovendo conquistas com responsabilidade social e afetiva.
Recomeçar não é esquecer. Recomeçar é lembrar com dignidade, com consciência e com responsabilidade. Em 2026, eu desejo — e convoco — que a gente viva um ano Sankofa: um ano em que olhamos para trás para buscar aquilo que nos constrói, aquilo que nos fortalece, aquilo que nossos ancestrais deixaram como herança de luta, sabedoria, amor e permanência.
Sankofa é um princípio africano que nos ensina que não há futuro digno se a gente rompe a ponte com o passado. Ele nos mostra que caminhar é gesto de coragem, mas lembrar é gesto de inteligência ancestral. Voltamos ao passado não para morar nele, mas para recolher o que nos fez crescer, aprender com o que nos feriu e escolher conscientemente o que levaremos adiante.
Lembro também de Conceição Evaristo quando nos oferece a Escrevivência: esse gesto de narrar a vida, de transformar experiências — nossas e coletivas — em memória, registro e caminho. Escrevivência não é só escrever; é existir escrevendo e escrever existindo. É afirmar que nossas histórias importam, nossas dores precisam ser ditas, nossas alegrias merecem permanência e nossos aprendizados não podem ser
silenciados.
Que 2026 seja esse lugar: o ano em que escrevemos a nossa própria história com mãos firmes, honestas e afetivas. Um ano em que possamos olhar para tudo o que vivemos — o que doeu e o que construiu — e decidirmos, com consciência, o que deixaremos para trás e o que levaremos para frente. Um ano de cura, de retomada, de sutura nas feridas abertas pelo tempo e pela desigualdade.
2026 precisa ser também um ano de encontro. Um ano de parcerias verdadeiras, de alianças éticas, de redes que sustentam e não só consomem. Um ano em que aprendemos a olhar o outro como um universo único: sem julgamento, sem preconceito, sem pressa em enquadrar. A diferença não é ameaça — é escola. É na diferença que eu amplio o mundo. É no encontro com quem pensa, sente e vive diferente de mim que eu cresço e me humanizo.
Que a gente olhe para cada pessoa com respeito e consciência de que não há humanidade possível quando escolhemos excluir. Que 2026 nos ensine que não dá mais para repetir os erros do passado: não dá para sustentar violências, silenciar vozes, naturalizar racismos, desigualdades e invisibilizações. Sankofa também é isso: olhar para trás e decidir não repetir o que nos machucou enquanto sociedade. É aprender com os tropeços e insistir nos acertos.
Desejo que 2026 seja ano de conquistas, sim — mas conquistas com sentido, com ética, com responsabilidade afetiva e social. Ano de oportunidades criadas coletivamente. Ano em que possamos reconhecer nossa ancestralidade e honrar quem veio antes de nós, ao mesmo tempo em que construímos caminhos para quem virá depois.
Que 2026 seja o ano em que a gente entenda, de uma vez por todas, que ninguém caminha só. Que nossa força vem de histórias contadas, lembradas e respeitadas. Que nossa potência está em seguir adiante sem abrir mão daquilo que nos fez ser quem somos. Que seja o ano do Sankofa. O ano da memória que impulsiona. O ano do recomeço consciente. O ano da escrita viva.
E você, leitor, como quer que seja o seu ano de 2026?
* Tatiane Santos é especialista em educação racial infantil e consultora no assunto.
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