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» VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Sou Gabriela, brasileira, mãe solo e sobrevivente de violência doméstica

A história de uma mãe que enfrentou a violência doméstica e a luta contra o câncer, revelando os impactos da manipulação emocional

Gabriela Barreiro Ferreira* Publicado em 29/05/2026, às 06h00

Gabriela Barreiro Ferreira - Foto: Gabriela Barreiro Ferreira/ Arquivo pessoal
Gabriela Barreiro Ferreira - Foto: Gabriela Barreiro Ferreira/ Arquivo pessoal

Gabriela, uma mãe solo brasileira, compartilha sua experiência de anos vivendo em um relacionamento abusivo que a levou a um estado de saúde física e emocional debilitado, culminando em um diagnóstico de câncer de mama.

Ela descreve como a violência psicológica e emocional a fez perder a noção de seu próprio valor, resultando em dependência e sofrimento contínuo, mesmo após a separação do parceiro abusivo.

Atualmente residindo no Canadá, Gabriela está em processo de recuperação, enfrentando desafios de saúde e emocionais, enquanto busca reconstruir sua vida e identidade longe do ambiente tóxico que a aprisionou por tanto tempo.

Resumo gerado por IA

Meu nome é Gabriela. Sou brasileira, mãe solo, sobrevivente de violência doméstica e de anos vivendo dentro de um cárcere emocional que destruiu minha saúde física, mental, emocional e financeira.

Durante muito tempo, eu não entendia que estava sofrendo violência doméstica. Porque as pessoas pensam que violência é apenas apanhar. Mas existe uma violência silenciosa, psicológica, emocional, que vai destruindo a mulher por dentro até ela perder completamente a noção do próprio valor.

Foi assim comigo.

Em 2019, conheci um homem pelas redes sociais. Inteligente, articulado, respeitado na cidade onde eu morava. Ele parecia seguro, forte, interessante. Nós conversávamos sobre política, filhos, vida, sociedade. Ele me fazia sentir vista. Eu estava fragilizada emocionalmente e queria acreditar que finalmente alguém cuidaria de mim.

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Mas aquele relacionamento foi me consumindo lentamente.

Vieram as manipulações emocionais, as humilhações, os desaparecimentos, as recaídas com drogas, as mentiras, os episódios agressivos, as invasões emocionais e psicológicas que me deixavam cada vez mais dependente e destruída.

Eu me tornei uma mulher que vivia tentando salvar alguém enquanto afundava junto.

Fazia comida para ele. Orava por ele. Chorava escondido para meus filhos não perceberem. Me culpava pelas recaídas dele. Tentava entender os traumas dele enquanto ignorava completamente os meus.

Passei anos vivendo como um trem descarrilhado emocionalmente.

E quanto mais eu adoecia, mais eu tentava ser aceita, amada e escolhida por alguém que nunca me enxergou verdadeiramente com amor.

Em 2020, pessoas envolvidas com ele chegaram a me ameaçar de morte. Vivi situações extremamente pesadas, degradantes e humilhantes. Muitas delas ainda nem consegui escrever completamente no livro que comecei sobre minha história, porque ainda dói demais revisitar certas memórias.

Esse relacionamento me levou ao limite psicológico, emocional e físico.

Em meio a tudo isso, minha saúde desmoronou.

Descobri um câncer de mama. Passei por quimioterapia, cirurgia, radioterapia, trombose, diabetes e outros problemas graves de saúde. E mesmo assim, eu continuava emocionalmente presa naquele ciclo.

Existe uma cena que nunca saiu da minha cabeça.

Dois dias depois da minha cirurgia do câncer, eu estava em casa, ainda com drenos no corpo, extremamente fragilizada. Era madrugada, por volta das duas da manhã, quando ele apareceu na minha porta pedindo dinheiro.

Eu neguei.

Então ele foi embora dizendo: “Como eu fiz a mãe dos meus filhos chorar por uma vagabunda como você?”

Essa frase continua ecoando dentro de mim até hoje.

Porque a violência psicológica faz isso. Ela se instala na mente da mulher e permanece mesmo depois que tudo acaba.

Hoje eu entendo que eu não queria luxo, status ou perfeição. Eu só queria que alguém cuidasse de mim. Só isso.

Mas em vez de cuidado, eu recebi abandono emocional, manipulação, humilhação, culpa e destruição psicológica.

Depois de anos tentando sair desse ciclo, em agosto de 2025 eu finalmente tive coragem de ir embora.

Mesmo ainda convivendo emocionalmente presa àquela realidade, consegui reunir forças para organizar documentos, enfrentar meus medos e pedir refúgio no Canadá junto com meu filho Benjamin.

Hoje estou no Canadá há quase 10 meses.

Meu filho, que hoje, dia 21 de maio, completa 10 anos, é uma das razões pelas quais continuo tentando sobreviver emocionalmente todos os dias. Ao mesmo tempo, sinto uma dor profunda pela distância do meu filho mais velho, que ficou no Brasil. Existe uma culpa silenciosa dentro de uma mãe que sente que a própria vida virou um campo de guerra emocional.

Hoje o governo canadense me ajuda enquanto continuo tentando reconstruir minha vida e minha saúde. Ainda estou em investigação médica por suspeita de possível metástase óssea relacionada ao câncer.

E a verdade é que as pessoas não entendem o quanto anos de abuso emocional alteram o cérebro de uma mulher.

A hipervigilância. O medo constante. A ansiedade. A culpa. A dificuldade de confiar. A sensação de perigo mesmo em silêncio. Os gatilhos emocionais.

Os rancores. As dores que permanecem no corpo e na mente.

A recuperação não acontece quando a mulher vai embora. Ela começa ali.

E pode levar anos.

Hoje eu ainda estou no começo da minha recuperação emocional.

Ainda existem dores dentro de mim que não consigo compreender completamente. Ainda existem perguntas que faço para Deus em silêncio.

Uma delas é: por que eu nunca me senti verdadeiramente amada por nenhum homem da minha vida? Nem pelo meu pai. Nem pelos homens que passaram pela minha história.

Talvez escrever seja minha forma de sobreviver. Talvez contar minha história seja a única maneira de impedir que toda essa dor tenha sido em vão.

E talvez alguma mulher, ao ler isso, perceba mais cedo do que eu percebi que amor nunca deveria destruir a saúde, a dignidade e a alma de alguém.

Também precisei abandonar muita coisa da minha própria vida para conseguir sobreviver emocionalmente. Eu me afastei de mim mesma. Me afastei da mulher que eu era antes de tudo isso começar. Perdi sonhos, estabilidade, saúde, identidade e até a capacidade de enxergar valor em mim.

Hoje, olhando para trás, percebo o quanto fui sendo diminuída aos poucos. E talvez seja isso que a violência psicológica faça de mais cruel: ela não destrói a mulher de uma vez. Ela vai apagando lentamente sua luz, sua força, sua autoestima e sua esperança.

Existiram momentos em que eu achei sinceramente que não conseguiria continuar viva emocionalmente.

Eu estava cansada. Muito cansada.

Cansada de implorar por amor. Cansada de tentar salvar alguém enquanto eu mesma adoecia. Cansada de ser humilhada. Cansada de tentar provar meu valor para pessoas que só me machucavam.

E mesmo assim, eu permanecia ali.

Porque existe uma dependência emocional muito profunda em relações abusivas. Uma prisão invisível que faz a mulher acreditar que não consegue mais viver sem aquela pessoa, mesmo sofrendo diariamente.

Muitas pessoas enxergam apenas a mulher que ficou. Mas não enxergam a mulher que foi emocionalmente destruída antes disso.

Não enxergam o medo. Não enxergam a manipulação. Não enxergam a culpa. Não enxergam o quanto a vítima passa a acreditar que merece aquela dor.

Hoje, estando longe, em outro país, ainda percebo o quanto meu cérebro continua em estado de alerta. Às vezes sinto culpa por estar viva. Às vezes sinto culpa por ter ido embora. Às vezes sinto culpa por não ter conseguido proteger melhor meus filhos emocionalmente de tudo o que vivi.

E talvez uma das partes mais difíceis seja reconstruir minha própria identidade depois de tantos anos sobrevivendo.

Porque eu não vim para o Canadá apenas fugindo de um relacionamento abusivo. Eu vim tentando salvar o que restava de mim.

Ainda sinto medo. Ainda sinto tristeza. Ainda sinto revolta por muitas coisas que vivi e permiti viver.

Mas também sinto que pela primeira vez em muitos anos estou tentando respirar sem viver dentro de um ambiente constante de tensão emocional.

Hoje minha vida ainda está longe de ser perfeita. Estou em tratamento médico, tentando reorganizar minha saúde física e mental, tentando criar estabilidade para meu filho, tentando entender meu próprio futuro em um país completamente diferente do meu.

E mesmo com toda a dor, existe uma pequena parte de mim tentando acreditar que ainda mereço viver algo diferente da violência, do abandono emocional e da humilhação.

Talvez essa seja a parte mais difícil da recuperação: aprender que sobreviver não é a mesma coisa que viver.

E eu ainda estou aprendendo isso.

*Gabriela Barreiro Ferreira

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