Ex-executiva, ela criou uma técnica própria que combina recorte, pintura e colagem para ressignificar desenhos de crianças e eternizar memórias
Redação Publicado em 03/07/2026, às 06h00 - Atualizado às 07h16

A artista Juliana Nascimento, conhecida como Juna, transforma desenhos infantis em composições artísticas, resgatando a espontaneidade e a imaginação da infância. Seu trabalho não apenas preserva traços e personagens, mas também busca eternizar a essência da infância ao longo da vida.
A ideia surgiu quando Juna começou a acumular os desenhos de sua filha, levando-a a criar colagens que refletiam a experiência de muitos pais. Sua técnica mista envolve recortes, colagens e intervenções pictóricas, adaptando-se ao desenvolvimento gráfico das crianças.
Após uma carreira em administração, Juna fez uma transição para a arte, impulsionada por um processo de autoconhecimento. Seu trabalho é visto como uma coautoria com as crianças, promovendo um sentimento de orgulho e conexão com suas criações ao longo do tempo.
A artista Juliana Nascimento, conhecida como Juna, encontrou na sensibilidade infantil a matéria-prima de sua produção artística. Seu trabalho parte de desenhos feitos por crianças e guardados pelas famílias, que ela transforma em composições visuais elaboradas com recorte, colagem e pintura.
Ela define o próprio ofício com simplicidade: “Eu falo que sou uma artista da infância. Eu resgato a memória criativa expressa em desenhos infantis guardados das crianças e ressignifico eles em novas obras”.

A ideia surgiu a partir de uma experiência pessoal. Quando a filha tinha entre 3 e 4 anos, Juna acumulava pastas com produções escolares sem saber o que fazer com elas.
“Eu não sabia muito o que fazer com aquilo, acabava colocando dentro de armários. Teve uma vez que pensei: ‘Não faz sentido ficar guardado’.” Jogar fora também não era opção. A solução veio de forma intuitiva: ela reuniu os desenhos e montou uma colagem para expor na parede do quarto da filha.
O gesto virou um ponto de virada criativo e profissional. “Eu poderia fazer isso para outras famílias”, pensou na época. Assim começou o desenvolvimento da técnica que hoje define sua produção artística.
Juna explica que trabalha com três linguagens — abstrata, híbrida e figurativa — todas baseadas na mesma metodologia: a técnica mista. “Isso quer dizer que eu uso o recorte, a colagem e a repintura do desenho.”
O processo começa com a seleção do acervo da criança, que varia conforme a idade e o estágio de desenvolvimento gráfico. “Quando é muito pequena é mais abstrato, depois vêm as garatujas, depois o desenho com motricidade mais fina.”
Depois da curadoria, ela recorta os elementos escolhidos, pinta, recorta novamente, cola e, por fim, adiciona intervenções pictóricas próprias. “Eu adiciono algumas camadas minhas de pintura em cima do desenho. Mas tem rabisco junto, tem tinta, enfim. Uma mistura.”

Embora hoje esteja inserida no circuito artístico, sua formação original não era voltada às artes. “Meu pai sempre falou: ‘Juliana, o mundo é dos negócios, vai fazer administração’.”
Ela seguiu o conselho, formou-se administradora pela FGV e passou quase 14 anos no mercado corporativo antes de iniciar a jornada de autoconhecimento que a levou à arte. “Eu já estava buscando alguma coisa para sair desse lugar dos negócios.”
Nesse período, percebeu que todas as ideias que a moviam estavam ligadas à infância e à criação. Começou pela fotografia, mas logo migrou para o desenho. Em cerca de dois anos, fez a transição completa para viver da arte.
Mais do que estética, o trabalho traz uma investigação sensível sobre o olhar infantil. “A criança vive no estado da presença”, afirma. Para ela, observar esse comportamento é também uma forma de aprendizado adulto. “A criança não tem medo do erro. Para ela, existe só o processo de experimentação.”
Essa liberdade aparece nas obras e também na reação de quem participa delas. “A criança reconhece o desenho e fala: ‘É a minha arte’. Ela se apropria.” Juna define o processo como uma coautoria: “Eu tenho o meu trabalho de curadoria, composição e repintura, mas coloco a arte da criança em primeiro plano.”
Segundo relatos das famílias, as obras costumam virar motivo de orgulho. “Tem crianças que, quando chega visita em casa, querem mostrar a arte exposta.” Para a artista, porém, o impacto mais profundo acontece com o tempo.
“Meu trabalho não é só para a criança de 4 ou 5 anos. É para ela de 40 ou 50. Quando ela rever esse trabalho, vai ser um resgate de quem ela era lá na origem.”
No fim, é essa permanência que define sua missão artística. “Como dizia a escritora Lya Luft, a infância é o chão onde a gente pisa a vida toda. Meu propósito é eternizar essa infância, que dura apenas 12 anos, para o resto da vida daquele indivíduo”, afirma.

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