De engenheira a programadora cultural, Paula Abreu redefiniu sua carreira através da arte e da diversidade cultural
Lina Santiago* Publicado em 07/02/2026, às 06h00

Paula Abreu, engenheira de produção, redirecionou sua carreira após uma experiência em Angola, passando a ver a arte como uma ferramenta de conexão cultural, o que a levou a estudar gestão das artes em Nova York.
Após uma década no SummerStage, festival de música ao ar livre, Paula se tornou programadora no McCarter Theatre Center, onde curadoria de eventos reflete diversidade e inclusão, aumentando a presença de artistas historicamente sub-representados.
Apesar dos desafios como o aumento do tempo de processamento de vistos para artistas, Paula considera seu trabalho uma forma de resistência e educação, promovendo a arte como um meio de ampliar horizontes e fomentar o reconhecimento cultural.
Paula Abreu construiu uma trajetória profissional que desafia caminhos lineares. Formada em Engenharia de Produção pela PUC-Rio, com passagem de sete anos pela empresa de consultoria Accenture, ela poderia ter seguido uma carreira sólida no universo corporativo. Mas foi uma experiência profissional de seis meses vivendo e trabalhando em Luanda, Angola, que redefiniu suas prioridades e abriu espaço para uma inquietação que viria a se tornar vocação: a arte como ferramenta de conexão entre culturas.
A vivência africana despertou em Paula um interesse profundo por música, identidade e diversidade cultural. De volta ao Brasil, ela entendeu que mudar de rota exigiria mais do que intuição - era preciso formação. O caminho escolhido foi Nova York, onde cursou o mestrado em Performing Arts Administration na New York University (NYU), uma espécie de MBA voltado especificamente para a gestão das artes performáticas. A decisão não tinha, à época, a ambição de permanência definitiva nos Estados Unidos, mas o percurso profissional que se seguiu acabou por fixá-la no país.
Logo após o mestrado, Paula iniciou uma longa e decisiva passagem pelo SummerStage, o maior festival gratuito de música ao ar livre de Nova York, com apresentações no Central Park e em outros parques da cidade. Foram dez anos de experiências intensas, lidando com grandes produções, diversidade de públicos e artistas de todo o mundo. Essa década consolidou sua compreensão de que arte também é gestão: orçamento, logística, negociação, planejamento e visão de longo prazo — habilidades herdadas diretamente da engenharia e da consultoria.
Há cerca de três anos, Paula assumiu o cargo de programadora de eventos no McCarter Theatre Center, em Princeton, um teatro com quase cem anos de história localizado no campus da Princeton University, nos Estados Unidos. Ali, ela é responsável pela curadoria de cerca de 45 a 50 datas por temporada, selecionando espetáculos de música, dança, comédia e spoken word - uma forma de arte literária e performance onde poemas, histórias ou letras são declamados em voz alta. Para Paula, a temporada não é uma soma de eventos isolados, mas um projeto autoral: um grande mosaico que reflete escolhas estéticas, políticas e humanas.

Sua curadoria parte de um princípio claro: diversidade não é concessão, é critério de excelência.
"Eu tento incluir artistas de diferentes níveis de carreira, diferentes nacionalidades, diferentes estilos, diferentes disciplinas, dança, spoken word, música... É um quebra-cabeça gigante que tem que ser eclético", diz Paula
Em sua primeira temporada no McCarter, Paula mais do que dobrou a presença de artistas negros, latino-americanos e de outras comunidades historicamente sub-representadas nos palcos institucionais. A decisão não é apenas simbólica. Ela se traduz em escolhas conscientes que enfrentam o eurocentrismo ainda dominante nas artes performáticas e ampliam o repertório cultural do público.
Brasileiros, por exemplo, quase não haviam passado pelo palco do teatro em nove décadas de existência. Hoje, ocupam espaço na programação, ao lado de artistas africanos, latino-americanos e de regiões menos habituais no circuito tradicional. Para Paula, a música brasileira, com sua riqueza rítmica, poética e harmônica, merece maior projeção internacional. "Não é só porque eu sou brasileira, mas eu acho que a música brasileira merece mais destaque no mundo, porque é muito boa. A diversidade da nossa música, a riqueza dos ritmos, das harmonias, da melodia, da poesia... Não é tão fácil ver isso em outras músicas."
As expressões artísticas do continente africano, que ela considera essenciais para uma visão mais realista do mundo contemporâneo, também recebem muita atenção da produtora. "Se eu puder toda a temporada eu vou ter algum artista africano, que é outra coisa que para mim é uma prioridade. É um continente riquíssimo com música maravilhosa que merece mais espaço aqui também", completa ela.
Em um contexto político global marcado por tensões migratórias e retrocessos na pauta da diversidade, o trabalho de Paula também enfrenta desafios práticos. O aumento no tempo de processamento de vistos para artistas estrangeiros e a insegurança de alguns deles em viajar para os Estados Unidos impactam diretamente a programação cultural. Ainda assim, ela insiste: curar também é resistir. Sempre que possível, seus projetos se desdobram em ações educativas, debates e iniciativas de conscientização, como ocorreu com a apresentação de uma orquestra ucraniana acompanhada de encontros acadêmicos e arrecadação solidária.
Mais do que programar espetáculos, Paula Abreu entende seu trabalho como um serviço público silencioso: ampliar horizontes, provocar encontros improváveis e lembrar que a arte é um dos caminhos mais potentes para o reconhecimento do outro.
"Eu penso que estou educando o público, trazendo de pouquinho em pouquinho até o público se acostumar, gostar e querer procurar por conta própria", arremata Paula, ciente da importância de seu trabalho.
Em um mundo cada vez mais fragmentado, sua curadoria aposta na escuta, na representatividade e na experiência profunda. Experiência que transforma tanto quem está no palco quanto quem ocupa a plateia.
*Lina Santiago é repórter do portal marianakotscho
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