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Nasci duas vezes: como o AVC transformou a minha vida e me deu um novo propósito

O AVC não apenas afetou meu corpo, mas também minha identidade, levando-me a um profundo entendimento sobre a vida e a superação

João Diniz* Publicado em 17/07/2026, às 06h00

O AVC é uma das principais causas de morte e de incapacidade no Brasil. - Foto: Canva Pro
O AVC é uma das principais causas de morte e de incapacidade no Brasil. - Foto: Canva Pro

Em 27 de dezembro de 2024, um AVC isquêmico transformou a vida de João Diniz, que, após uma cirurgia de emergência, recebeu uma segunda chance de vida, mas enfrentou profundas mudanças em sua identidade e habilidades.

Diniz, um jornalista e empreendedor ativo, perdeu a capacidade de falar e os movimentos do lado direito do corpo, enfrentando uma longa jornada de reabilitação que incluiu fonoaudiologia e fisioterapia, além de lidar com a depressão como consequência do AVC.

Motivado por sua experiência, ele criou o projeto 'AVC Eu Sobrevivi' para oferecer informação e apoio a outros sobreviventes, destacando a importância da esperança na recuperação e a necessidade de conscientização sobre as sequelas do AVC na sociedade.

Resumo gerado por IA

Existem dias que dividem a vida de uma pessoa em dois capítulos, e o meu foi 27 de dezembro de 2024. Nesta data, aos 51 anos de idade, sofri um AVC isquêmico no lado esquerdo do cérebro e entrei numa cirurgia de emergência, sem imaginar que estava lutando pela minha própria vida. Depois da cirurgia, o médico reuniu minha esposa e meus filhos e disse: “Ele deveria ter morrido”. Mas Deus escreveu uma história diferente, e naquele momento, ganhei uma segunda chance.

No dia seguinte, acordei vivo. Mas também acordei completamente diferente da pessoa que havia sido até então: foi como nascer outra vez. Antes do AVC, minha vida era intensa. Sou jornalista, empreendedor e passei mais de três décadas construindo empresas. Tive mais de 20 restaurantes, liderei mais de 600 colaboradores e sempre fui apaixonado por pessoas. Conversar, ensinar, aprender e trocar experiências eram partes da minha identidade.

Também treinava jiu-jitsu e praticava atividade física diariamente, eu vivia em movimento. Até que, de um dia para o outro, tudo mudou. Acordei sem conseguir falar. A afasia, causada pelo AVC no lado esquerdo do cérebro, roubou justamente aquilo que mais fazia parte de quem eu era: a comunicação. É muito difícil explicar essa sensação para quem nunca passou por isso. Costumo dizer que foi como acordar em um país onde todos falam outra língua e você não conhece uma única palavra.

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Você entende que precisa falar, sabe que existe uma palavra para tudo, mas ela simplesmente desapareceu da sua mente. Foi exatamente isso que aconteceu comigo. Precisei reaprender cada palavra, cada frase e cada conversa, como uma criança que está descobrindo o mundo pela primeira vez. Um ano e meio depois, continuo fazendo fonoaudiologia praticamente todos os dias. A recuperação não acontece de uma vez, ela acontece palavra por palavra.

Além da fala, perdi os movimentos do lado direito do corpo. Durante seis meses fiz fisioterapia diariamente para voltar a andar, recuperar força, equilíbrio e autonomia. Cada passo conquistado parecia uma vitória olímpica. Mas existem sequelas que ninguém consegue enxergar, uma dor silenciosa que acompanha milhares de sobreviventes. Durante praticamente um ano convivi com a depressão. Quando o AVC acontece, ele não afeta apenas o cérebro, ele muda a identidade, a autoestima, os sonhos e a forma como a pessoa enxerga a própria vida. Muitos sobreviventes deixam de reconhecer quem são. É uma batalha invisível, travada todos os dias.

Infelizmente, ainda se fala pouco sobre isso. Enquanto eu reaprendia a viver, comecei também a estudar profundamente o AVC. Queria entender por que tantas pessoas passavam pelas mesmas dificuldades, e foi então que descobri uma realidade preocupante: o AVC continua sendo uma das principais causas de morte e de incapacidade no Brasil. Milhares de brasileiros sobrevivem, mas ficam com sequelas físicas, cognitivas e emocionais que transformam completamente suas vidas.

Além disso, grande parte da população depende exclusivamente do SUS para realizar exames, tratamentos e reabilitação. A informação, muitas vezes, chega tarde demais. Percebi que minha experiência precisava servir para alguma coisa, e foi assim que nasceu o “AVC Eu Sobrevivi”. O projeto surgiu para levar informação, acolhimento e esperança às pessoas que enfrentam essa doença e às suas famílias. Todos os dias recebo mensagens de sobreviventes, familiares e profissionais de saúde. Alguns agradecem por aprender a reconhecer os sinais do AVC. Outros dizem que voltaram a acreditar na recuperação depois de ouvir minha história. São mensagens que me emocionam profundamente.

Hoje, compreendo que sobreviver ao AVC não foi apenas um milagre, foi um chamado. Se antes eu construía empresas, hoje procuro ajudar a reconstruir vidas. Se antes meu trabalho gerava empregos, hoje meu propósito é gerar esperança. Descobri que algumas cicatrizes não nos diminuem, elas nos transformam.

O AVC levou muitas coisas de mim: minha fala, meus movimentos e parte da minha antiga identidade. Mas também me deu algo infinitamente maior: um propósito. Hoje, digo com toda convicção, que nasci duas vezes: a primeira, quando vim ao mundo, e a segunda, quando sobrevivi ao AVC.

E, desde então, cada palavra que consigo pronunciar, cada passo que consigo dar e cada pessoa que consigo ajudar são provas de que recomeçar é possível. A minha segunda vida agora tem uma única missão: mostrar a quem enfrenta um AVC que a esperança também faz parte do tratamento. Porque sobreviver é apenas o começo. O verdadeiro desafio, e também a maior vitória, é aprender a viver novamente.

* João Diniz é Especialista em Empreendedorismo e Liderança e sobrevivente de um AVC.

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