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Não existe ex-mãe: notas sobre um filho que partiu cedo demais

A complexidade da maternidade após a perda de um filho e como isso redefine a identidade materna

Taianara Soares* Publicado em 05/01/2026, às 06h00

Silhueta de mulher com cabeça abaixada aparentando tristeza
Taianara Soares: "Perder um filho pequeno não é apenas perder alguém que se ama, é perder alguém que ainda estava sendo descoberto." - Foto: Canva Pro

Em janeiro de 2023, uma mãe deu à luz seu segundo filho, Rakim, que foi diagnosticado com um tumor cerebral raro e agressivo, resultando em um tratamento intenso que culminou em sua morte após um ano de vida.

A experiência de luto traz à tona uma maternidade complexa, onde a dor não se limita à perda, mas também ao que nunca foi vivido, deixando um vazio de promessas não cumpridas e momentos interrompidos.

A autora destaca a necessidade de reconhecimento do amor que persiste mesmo após a morte, pedindo respeito e espaço para que as mães que perderam filhos possam lembrar e honrar suas memórias sem pressões sociais para seguir em frente.

Resumo gerado por IA

Em 28 de janeiro de 2023, um pouco antes de completar 30 anos, dei à luz o meu segundo filho, Rakim. Quatro meses depois, ao perceber que seu olhar estava diferente, segui a intuição e o levei a uma oftalmologista. De lá, fomos encaminhados à emergência para uma tomografia, que revelou um tumor cerebral gigante, posteriormente diagnosticado como Tumor do Plexo Coroide — raro e agressivo.

Três dias após o diagnóstico, ele passou pela primeira grande cirurgia. Ao longo do tratamento, descobrimos que o tumor já existia ainda no período intrauterino. Foram onze meses de batalhas intensas, marcadas por cirurgias de alto risco, tratamento oncológico, longas internações e cuidados paliativos. Com um ano e três meses, meu filho partiu, deixando uma marca profunda em quem ficou.

Depois da sua morte, precisei reafirmar algo que o mundo parece não saber acolher: continuo sendo mãe do filho que se foi. Trata-se de uma maternidade estranha, pouco nomeada, pouco compreendida. Uma maternidade sem cronologia. Não há acompanhamento do crescimento, não há novas fotos, não há “depois”. O amor não amadurece junto com o filho. É um vínculo sem segundo capítulo.

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Não existe ex-mãe. Meu filho não deixou de existir. Os momentos que vivemos juntos permanecem nesse intervalo delicado do tempo, onde nada se apaga por completo. O que existe é o espanto diário de continuar sendo, mesmo quando o mundo parece esperar o contrário. Fala-se em retomada, em seguir em frente, em reconstrução — como se a maternidade fosse um lugar que se abandona quando não há mais quem o ocupe fisicamente.

Perder um filho pequeno não é apenas perder alguém que se ama. É perder alguém que ainda estava sendo descoberto. Um bebê de um ano não deixa histórias suficientes para consolar. Não deixa frases marcantes nem memórias longas. Deixa gestos interrompidos. Deixa promessas.

Nesse tipo de luto, a dor não é apenas pelo que foi, mas pelo que nunca teve tempo de ser. Talvez por isso algumas datas doam tanto.

No último Natal, o segundo sem Rakim, enquanto comprava um presente para Kalel, seu irmão mais velho, uma vendedora me perguntou se eu tinha apenas um filho. Perguntas assim ainda me desnorteiam. Posso dizer que tenho dois e explicar o que aconteceu. Posso dizer que tenho um e, naquele instante, apagar a existência de quem partiu. Naquele dia, apenas concordei, com o coração apertado.

A árvore estava cheia de presentes, mas faltava um. Rakim viveu apenas um Natal em um quarto de CTI. E passe o tempo que passar é algo que não poderá ser alterado.

Não lamento apenas a ausência do meu filho. Lamento o adulto que ele não pôde se tornar, a voz que nunca ouvi mudar, as perguntas que não fez, as respostas que nunca me pediu, a primeira ida à escola, as descobertas mais simples. Lamento uma vida inteira que existiu apenas como possibilidade.

Ainda assim, continuo sendo mãe desse futuro que não virá. Ele continua sendo meu filho.

Socialmente, isso causa desconforto. Espera-se que a maternidade acompanhe a presença concreta do filho e que, na ausência, se dissolva. Mas o amor não obedece à lógica da utilidade nem à exigência de continuidade visível. Ele não desaparece só porque perdeu o futuro.

O que raramente se diz é que o luto de uma mãe não é apenas tristeza. É um deslocamento profundo de identidade. Quem sou eu quando continuo sendo algo que o mundo acredita que acabou? Onde coloco esse amor que não encontra mais novas cenas para habitar?

Se você conhece uma mãe que vive a ausência de um filho, não tente apressar seu tempo nem corrigir sua dor. Apenas respeite. Às vezes, tudo o que uma mãe precisa não é de respostas, mas de um espaço onde seu filho continue sendo lembrado.

*Taianara Soares é mãe e pedagoga. Escreve sobre maternidade, luto e os silêncios que atravessam a experiência de perder um filho.

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