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“Eu morreria pelo meu filho, mas você viveria por ele?”

O que 48 horas num hospital me ensinaram sobre saber e não conseguir fazer

Patrícia Villa Nova* Publicado em 31/05/2026, às 06h00

Patrícia Villa Nova, idealizadora e host do Podcast Conexão das Mulheres - Foto: Divulgação
Patrícia Villa Nova, idealizadora e host do Podcast Conexão das Mulheres - Foto: Divulgação

Após um episódio de internação, uma mãe reflete sobre a importância de viver bem por sua filha, questionando se estava realmente cuidando de si mesma enquanto se dedicava à maternidade.

Ela reconhece que, apesar de saber sobre a necessidade de autocuidado, ignorou os sinais de exaustão e continuou a priorizar as demandas diárias em detrimento da própria saúde.

A experiência a levou a entender que é fundamental quebrar o ciclo de exaustão e ensinar à filha que cuidar de si mesma não é egoísmo, mas uma escolha necessária para uma vida saudável e plena.

Resumo gerado por IA

O corpo avisa. Depois grita. E, quando a gente continua ignorando, ele para tudo.

Recentemente, vivi um episódio traumático que me obrigou a encarar uma pergunta que eu nunca tinha feito de verdade para mim mesma: eu morreria pela minha filha, mas será que eu estava vivendo bem por ela?

Existe uma frase que quase toda mãe repete automaticamente: “Eu morreria pelo meu filho.” É forte, bonita, emocionante. A gente imagina grandes gestos, situações extremas, sacrifícios heroicos. Mas existe uma pergunta muito mais difícil e desconfortável: você viveria por ele?

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Não sobreviveria. Viveria. Com saúde física e mental. Presente de verdade. Com energia, paciência, equilíbrio e um corpo funcionando sem estar no limite o tempo inteiro.

Eu descobri da pior forma que morrer parece mais simples do que viver bem. Porque viver exige coragem silenciosa. Exige desacelerar. Pedir ajuda. Admitir que não está dando conta.

Passei 48 horas internada num hospital. Não era uma gripe, não era um mal-estar passageiro. Foram dois dias de exames, silêncio e uma sensação inevitável de que meu corpo estava me obrigando a ouvir algo que eu vinha ignorando há muito tempo.

Deitada naquela cama, sem celular, sem agenda e sem as distrações da rotina, percebi o quanto eu estava funcionando no automático. E o mais doloroso foi entender que eu já conhecia todos os sinais.

Há quase quatro anos conduzo o Conexão das Mulheres, um espaço onde escuto histórias de mulheres que adoeceram tentando dar conta de tudo. Mulheres que ignoraram os próprios limites até o corpo parar.

Eu ouvi cada relato. Me emocionei com cada história. Compartilhei reflexões sobre autocuidado, descanso e saúde mental. Mas, honestamente? Eu achava que comigo seria diferente.

No hospital, entendi uma verdade dura: saber não é o mesmo que fazer.

Eu sabia que descanso não é luxo. Sabia que ninguém sustenta uma rotina de exaustão para sempre. Sabia que dizer “não” é necessário. Mesmo assim, continuei virando noites para entregar projetos, ignorando dores de cabeça, normalizando o cansaço extremo e colocando minha saúde sempre por último.

Porque a vida acontece rápido demais. O trabalho acumula, a casa precisa funcionar, as demandas chegam sem parar e, no meio disso tudo, a gente vai silenciando o próprio corpo.

Até ele não aceitar mais ficar calado.

Minha filha tem 12 anos e uma das coisas que mais me atravessaram durante a internação foi pensar no exemplo que estou deixando para ela. Não no que eu digo, mas no que ela vê.

Ela percebe quando meu sorriso não chega aos olhos. Quando respondo no automático. Quando digo “está tudo bem” sem estar.

E eu entendi que ela não precisa de uma mãe heroína. Precisa de uma mãe saudável. Presente. Inteira.

Precisa aprender, através de mim, que exaustão não é troféu. Que pedir ajuda não é fraqueza. Que cuidar de si não é egoísmo.

Porque, se eu não quebrar esse ciclo agora, ela provavelmente vai repetir o mesmo padrão quando crescer. Vai acreditar que ser mulher significa se esgotar até o limite.

Eu não quero mais ensinar isso.

Depois dessas 48 horas, percebi que preciso abrir mão da culpa por não dar conta de tudo, da necessidade constante de provar força e da ideia romantizada de que descanso precisa ser merecido.

O que eu não quero mais perder é minha saúde, minha presença real na vida da minha filha e minha capacidade de viver de verdade, não apenas existir enquanto risco tarefas da lista.

Hoje entendo que morrer por alguém pode até parecer heroico. Difícil mesmo é viver bem por quem a gente ama.

Porque viver bem exige escolhas diárias e nada glamourosas. Exige parar antes do colapso. Respeitar limites. Escolher a própria saúde sem culpa.

E foi isso que aprendi da forma mais dura.

Não quero que minha filha cresça vendo uma mãe que se anulou até desaparecer. Quero que ela veja uma mulher que aprendeu, a tempo, que viver bem pelos outros começa por não desistir de si mesma.

*Patrícia Villa Nova é especialista em Recursos Humanos, empreendedora, idealizadora e host do Podcast Conexão das Mulheres e palestrante sobre empreendedorismo feminino.

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