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» DIVERSIDADE RELIGIOSA

Do pai, do filho e do espírito santo para todo mundo

A necessidade de respeitar a diversidade religiosa e evitar imposições para todo mundo em contextos educacionais

Raphael Preto Pereira* Publicado em 27/12/2025, às 06h00

Desenhos com símbolos de seus religiões distintas
Ninguém pergunta se o colega é católico, umbandista ou ateu para dar presente. Então, qual o motivo de fazer essa pergunta insistentemente na vida? - Foto: Canva Pro

A relação com a religião é complexa, com manifestações que podem exigir conformidade, como observado em uma crítica a padres que tentam controlar o comportamento de crianças durante cerimônias religiosas.

O autor reflete sobre sua experiência em uma escola pública onde a diversidade religiosa era abordada, destacando um caso recente de ameaça a uma professora que ensinava sobre religiões de matriz africana, evidenciando a resistência a essa diversidade.

Apesar de experiências pessoais de tolerância, o texto sugere que a imposição de crenças religiosas em ambientes educacionais deve ser evitada, promovendo um diálogo mais inclusivo e interessante sobre temas diversos no futuro.

Resumo gerado por IA

Para algumas pessoas, religião entrega conforto. Para mim as manifestações religiosas exigem uma unidade de pensamento, ao menos no momento da execução. Isso não é nada saudável. Já vi padre reclamando de criança abrir o berreiro em batizado.

Para o sacerdote, a criança precisava “entender o ambiente em que estava desde cedo”. Esse “desde cedo” era antes mesmo de falar. Eu duvido em grau igual da existência e da não existência de Deus. Isso e outras coisas, como o padre opressor do choro de bebê, me fazem fugir de qualquer celebração religiosa.

Eu gosto de alguns padres, das coisas que falam e da maneira como se conectam com os pobres. E me surpreende que eles façam isso, muitas vezes, com a oposição dos “religiosos”.

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Pensei em ir à missa desses caras, mas me toquei de que a opção por uma religião, ou pela ida a um evento religioso, não deve ser dotada de personalismo. Deixei pra lá.

A religião sempre chegou até mim sem que eu pedisse, e não que eu tenha fechado a porta. Só não pedi para entrar, mesmo. Vou contar como isso aconteceu em uma escola pública e que portanto, deveria ser laica, e em tese era.

Eu nunca tive aula de ensino religioso. Mas, eu tive uma professora que rezava. A história termina bem. Ninguém pichou o muro da escola, chamou a polícia para ela. E é importante contar isso, porque a ideia de escrever este texto nasceu quando eu soube que uma professora responsável por uma aula sobre religião de matriz africana foi ameaçada por um pai de aluno.

Eu não sei se a professora era religiosa. Sei, entretanto, que o ensino sobre a diversidade religiosa e religiões de matriz africana faz parte do currículo da prefeitura de São Paulo - a escola onde o caso aconteceu é municipal.

Eu nunca reclamei da minha professora que rezava o pai nosso em sala de aula todo o começo de classe, e acho que fazia essa concessão por não me sentir obrigado a rezar junto com ela. Detalhe: ela lecionava matemática. Sua aula não tinha nenhuma relação direta com religião ou o ensino dela.

É preciso reconhecer que a docente nunca tirou sarro de nenhuma religião e nem perguntou se algum aluno tinha uma crença diferente da sua. Tampouco um aluno se declarou macumbeiro ou espiritista no meio da oração.

Posso acreditar que era uma relação de tolerância mútua. Mas há quem possa interpretar que os estudantes eram coagidos, com alguém em posição de poder, um professor, fazendo uma opção religiosa durante uma aula.

Nesse período de fim de ano, ninguém pergunta se o colega é católico, umbandista ou ateu para dar presente. Então, qual o motivo de ficarmos fazendo essa pergunta insistentemente na vida? Alguns mais do que outros, é verdade...

Que em 2026, a gente faça perguntas mais interessantes: comecemos pela música, pela comida, pelas séries de televisão. Pelo lance bonito do jogador do time adversário. Se for assim, talvez a gente consiga em 2026 matar a Odete Roitman de uma vez.

Feliz ano novo!

* Raphael Preto Pereira é jornalista

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