A nova edição do livro de Malu Lira traz uma visão atualizada sobre educação financeira e seu impacto social, e pode mudar destinos
Malu Lira* Publicado em 07/07/2026, às 06h00

Crescer na Amazônia traz desafios de acesso à educação e oportunidades, com muitas crianças enfrentando limitações em comparação aos centros urbanos. Essa realidade inspirou uma jovem a buscar formas de democratizar o conhecimento, especialmente sobre educação financeira.
Desde a mudança para Manaus, a autora percebeu a importância do conhecimento e, aos 11 anos, lançou o livro 'Finanças para Crianças Além da Mesada', que se tornou um best-seller e uma ferramenta pedagógica em diversas escolas do Brasil, ajudando famílias a discutir finanças de maneira saudável.
Atualmente, aos 16 anos, a autora atualiza seu trabalho com a segunda edição do livro e o projeto Malu Finanças na Escola, que já impactou mais de 200 instituições. Sua trajetória reflete um compromisso com a educação e a justiça social, enfatizando a importância de compartilhar conhecimento para transformar vidas.
Crescer na Amazônia significa conviver diariamente com uma das maiores riquezas naturais do planeta, mas também perceber que, muitas vezes, a distância geográfica se transforma em distância de oportunidades.
Existem lugares onde a informação chega mais tarde. Existem crianças que não têm acesso aos mesmos cursos, às mesmas experiências e às mesmas ferramentas de aprendizado disponíveis nos grandes centros urbanos.
Percebi isso muito cedo.
Ainda criança, observava que o conhecimento tinha o poder de mudar histórias e que o acesso a ele não deveria ser um privilégio de poucos. Quando minha família deixou o interior e se mudou para Manaus, novas possibilidades se abriram. Foi ali, com acesso à internet, a livros e a conteúdos educativos, que comecei a estudar sobre um tema que quase nunca era tratado com crianças: a relação com o dinheiro.
O interesse surgiu de uma pergunta simples. Por que as crianças aprendem tantas disciplinas na escola, mas crescem sem entender algo que estará presente em todas as decisões de suas vidas?
A curiosidade virou pesquisa. A pesquisa virou conhecimento. O conhecimento virou propósito.
Aos 11 anos, em uma fase em que muitas crianças ainda estão descobrindo seus próprios interesses, escrevi meu primeiro livro, "Finanças para Crianças Além da Mesada". A obra nasceu com uma ideia que carregava algo muito maior do que uma simples lição sobre moedas e economia. Eu queria democratizar o acesso ao conhecimento porque os livros chegavam onde a internet ainda não conseguia acessar e abriam um mundo de possibilidades toda vez que suas páginas eram abertas.
Um livro pode chegar onde uma palestra não chega. Um livro pode entrar em uma mochila, viajar por rios, estradas e cidades, ser lido por uma criança no interior da Amazônia ou em uma grande metrópole. Um livro não precisa de conexão com a internet, de um aparelho eletrônico ou de uma estrutura complexa para cumprir sua missão. Ele precisa apenas de alguém disposto a abrir e ler suas páginas.
O que começou como um projeto de uma menina se transformou em um movimento nacional. "Finanças para Crianças Além da Mesada" virou um best-seller da educação financeira infantil, chegando às mãos de milhares de famílias e sendo utilizado como ferramenta pedagógica em escolas de diferentes regiões do Brasil.
O sucesso também me revelou algo importante. As famílias buscavam ajuda para conversar com seus filhos sobre dinheiro de uma maneira saudável. A educação financeira deixava de ser vista apenas como um conjunto de regras sobre guardar e gastar e passava a ser compreendida como uma conversa sobre escolhas, responsabilidade, sonhos e construção de futuro.
Esse foi o início de uma trajetória que cresceria muito além da literatura.
Hoje, aos 16 anos e com 20 livros e mais de 400 mil exemplares vendidos, percebi que precisava atualizar o livro para uma nova realidade. Hoje, quando a internet chega, ela leva às crianças consumismo desenfreado e uma relação pouco saudável com temas gerais, mas principalmente com as finanças. Meu trabalho deu origem ao projeto Malu Finanças na Escola, que já impactou mais de 200 instituições de ensino brasileiras, levando uma nova forma de trabalhar a educação financeira dentro das salas de aula. A minha atuação também se expandiu para a criação de uma editora especializada em publicações voltadas para crianças e instituições de ensino, além de uma empresa responsável pelo desenvolvimento de programas e materiais didáticos sobre o tema.
Em uma geração frequentemente associada ao consumo acelerado de conteúdos digitais, eu defendo o papel como uma ferramenta para recuperar o controle da nossa história.
Especialistas ao redor do mundo têm discutido os impactos do excesso de telas e do consumo contínuo de conteúdos rápidos, fenômeno que ficou conhecido popularmente como "brain rot". A preocupação não está na tecnologia em si, que também pode ser uma poderosa ferramenta de aprendizado, mas no desequilíbrio que pode limitar experiências fundamentais da infância, como imaginar, criar, ouvir histórias e desenvolver a capacidade de reflexão.
Talvez exista uma grande ironia nessa história. Enquanto muitos adultos procuram maneiras de convencer seus filhos a se afastarem por alguns minutos das telas e abrirem um livro, uma adolescente de apenas 16 anos conseguiu transformar milhares de crianças em leitoras justamente porque decidiu escrever sobre algo que fazia parte da vida delas, dinheiro, mas também sobre sonhos.
A chegada da segunda edição traz novos capítulos, uma nova visão dessa Malu que se transformou nesses últimos cinco anos, “Finanças desde cedo: Além do Presente” representa um novo capítulo dessa missão e reforça a continuidade de um projeto que nasceu de uma criança que queria falar com outras, mas que agora fala com famílias, escolas e educadores em todo o país.
É por isso que minha história não pode ser contada apenas como a de uma adolescente que se tornou empresária cedo ou que alcançou números impressionantes no mercado editorial. Minha trajetória fala sobre algo mais profundo, sobre uma criança que entendeu que o mundo poderia ser mais justo se o conhecimento chegasse a todos, sobre a coragem de transformar uma pergunta em um livro, um livro em um negócio e um negócio em uma ferramenta de impacto social.
E, principalmente, fala sobre uma menina da Amazônia que descobriu cedo aquilo que muitos adultos levam uma vida inteira para aprender. A maior riqueza que alguém pode construir é aquela que consegue compartilhar.
* Malu Lira é estudante.
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