Entenda como a cultura organizacional doente da empresa contribui para o aumento do burnout e suas consequências financeiras
Bruno Gonçalves (Bruno UAU)* Publicado em 13/03/2026, às 06h00

O Brasil enfrenta uma crise de saúde mental no trabalho, com 472.328 afastamentos por transtornos mentais em 2024, um aumento de 68% em relação ao ano anterior, refletindo uma cultura organizacional prejudicial e custando mais de R$17,4 bilhões anuais.
A alta rotatividade de funcionários, com uma taxa de turnover de 51,3%, e a falta de preparação dos líderes para lidar com questões de saúde mental são fatores que agravam a situação, levando a um aumento significativo de processos judiciais relacionados ao burnout.
A partir de maio de 2025, a nova legislação exigirá que todas as empresas identifiquem e gerenciem riscos psicossociais, forçando uma mudança na cultura organizacional e na abordagem em relação à saúde mental dos colaboradores, que agora deve ser tratada como prioridade.
Quando três colaboradores seguidos pedem demissão por burnout, é hora de parar de olhar para as pessoas e começar a olhar para o espelho. O Brasil é o segundo país do mundo em prevalência de burnout (ISMA), e em 2024 as buscas por síndrome de burnout aumentaram 37% (Medprev, 2024). Mas aqui está a verdade que dói: não é geração mimimi. É uma cultura organizacional doente.
Em 2024, o Brasil bateu recorde com 472.328 afastamentos do trabalho por transtornos mentais, aumento de 68% em relação a 2023 (Ministério da Previdência Social). O custo ultrapassa R$17,4 bilhões anuais. Ficou tão caro que o governo teve que agir: a Portaria MTE n.º 1.419/2024 atualizou a NR-1 e, a partir de Maio de 2025, todas as empresas brasileiras foram obrigadas a identificar e gerenciar riscos psicossociais. Acabou o discurso bonito de uma empresa que cuida da saúde mental. Agora é lei.
Hoje, em 2026, você já deveria saber como anda a saúde mental dos seus colaboradores, mas eu vou te ajudar. Aqui estão os cinco sintomas que podem estar acontecendo na sua empresa agora mesmo:
O Brasil tem a maior taxa de turnover do mundo: 51,3% ao ano (Panorama de Gestão de Pessoas). Isso significa que metade dos funcionários das empresas brasileiras sai ou é desligada em 12 meses. Uma análise de 13.515 processos judiciais mostrou que as indenizações por burnout já ultrapassaram R$189 milhões (Predictus, 2025). As empresas estão literalmente pagando por ter uma cultura tóxica. E você aí bajulando o guru que faliu duas empresas por má gestão, mas grita no Instagram que é a favor de uma cultura de resultados.
Sinal de alerta: Se as mesmas vagas estão sempre abertas, o problema não é retenção. É o ambiente que expulsa quem acabou de chegar. E digo retenção porque esse é o jargão do mercado, mas a palavra já deveria ter virado fidelização, assim como quando falamos de clientes. Colaboradores precisam ser fidelizados e não retidos.
65% dos gestores admitem não estar preparados para lidar com problemas de saúde mental da equipe (Zenklub, 2024). E o paradoxo cruel: 44% dos próprios líderes sofreram queda de produtividade por questões emocionais. Conflitos com a liderança são a segunda maior causa de burnout no Brasil (Mercer, 2024). Promover o melhor técnico para gestor sem treiná-lo em liderança é uma receita com resultado garantido. E o resultado é desastroso.
Sinal de alerta: Gestor que não consegue nomear uma ação concreta de apoio à equipe no último mês não está liderando. Está cobrando. E cobrando errado.
Alta demanda e pressão por resultados são os principais fatores organizacionais do burnout (Revista de Gestão e Secretariado, 2024). Sobrecarga de trabalho é a causa número um do esgotamento no Brasil, à frente de salário baixo e falta de reconhecimento (Mercer, 2024). O problema não é ter metas. É ter metas descoladas da realidade, com prazos impossíveis, recursos insuficientes e equipes no limite. Quando alguém sinaliza que não vai dar, a resposta padrão é sempre a mesma: mindset de crescimento, fit cultural, agilidade. Fit cultural virou eufemismo para normalizar o insustentável.
Sinal de alerta: Se as metas só são alcançáveis com trabalho nos fins de semana e madrugadas, o problema está nas metas, não nas pessoas. Alta performance não se constrói com esgotamento.
Apenas 37% das empresas monitoram burnout. Das que monitoram, 70% oferecem incentivo à prática de exercícios físicos como principal ação (Mercer, 2024). Christina Maslach e Michael Leiter, criadores do Maslach Burnout Inventory, a ferramenta mais usada no mundo para medir burnout, são categóricos: o problema é organizacional, não individual. Yoga corporativa e day off de aniversário são bem-vindos e completamente inúteis quando a raiz do problema continua intacta.
Sinal de alerta: Se o programa de saúde mental não envolve reestruturar processos, redistribuir cargas e treinar lideranças, é teatro. Caro e ineficaz.
O presenteísmo, estar fisicamente presente e mentalmente ausente, custa mais do que a ausência do trabalhador no posto de trabalho. Ambientes com saúde organizacional deficiente ampliam significativamente a probabilidade de burnout, e todas as instituições pesquisadas em um levantamento nacional apresentaram precária saúde organizacional (Pepsic, 2024). As pessoas não falam porque têm medo: de parecerem fracas, de perderem o emprego.
Sinal de alerta: Se ninguém na empresa admite estar sobrecarregado, não é porque todos estão bem. É porque não há segurança psicológica para dizer a verdade.
Os afastamentos por transtornos mentais chegaram a 546.254 em 2025, crescimento de 15,66% em relação ao ano anterior (Ministério da Previdência Social, 2026). O INSS gastou R$173 bilhões com benefícios relacionados ao trabalho entre 2012 e 2024. A OMS estima perdas de US$1 trilhão anuais em produtividade global.
Se fosse falta de vontade de trabalhar, não teríamos profissionais de enfermagem, professores, vendedores e faxineiros no topo da lista. Não seriam 2.086 profissões diferentes afetadas (OIT e MPT, 2025). Nem tente argumentar que é coisa dessa nova geração, até porque eles não são os mais afetados, ainda.
Vamos falar de quem é mais afetado? 63,46% dos afastamentos por transtornos mentais em 2025 foram de mulheres, com idade média de 41 anos (Ministério da Previdência Social, 2026). Não é coincidência e não é fragilidade. É acúmulo de funções: trabalhadora, mãe, esposa e dona de casa. Segundo a PNAD Contínua 2022 do IBGE, mulheres com vínculo empregatício dedicam 6,8 horas semanais a mais do que homens em tarefas domésticas e cuidado de pessoas, além da jornada de trabalho remunerada. Esse número se mantém estável desde 2016. Não é algo novo!
A empresa que, por exemplo, ignora que uma gerente de 41 anos chega ao trabalho com quase 7 horas extras não contabilizadas está operando com um recurso em sobrecarga e fingindo que ele está em plena capacidade. Quando essa trabalhadora colapsa, o gestor acha que o problema é ela. Os dados dizem que o problema é o modelo.
O que mudou não foi a resistência das pessoas. Foi a precarização: jornadas extensas, metas inatingíveis, assédio normalizado, vínculos frágeis, baixos salários, zero autonomia. A NR-1 atualizada existe justamente porque o modelo atual está adoecendo milhões de brasileiros.
E agora, senta e chora?
A OMS calcula que cada R$1 investido em saúde mental retorna R$4 em produtividade. Precisa de mais o que para incentivar uma empresa a fazer esse investimento? Estamos falando de um ROI de 4x. Mas é preciso ir além do teatro. Formar líderes de verdade, porque promover técnicos sem treinar liderança é criar gestores tóxicos. Revisar metas com realismo, porque alta performance sustentável não se constrói com esgotamento. Criar canais de feedback que gerem ação, não apenas slides bonitos. Monitorar sinais ativamente: absenteísmo, queda de performance, afastamentos. Redistribuir cargas de trabalho, porque processos ineficientes adoecem pessoas. E normalizar a vulnerabilidade: quando lideranças falam sobre seus próprios desafios, criam segurança psicológica, e segurança psicológica é o ambiente onde performance de verdade acontece.
Burnout organizacional não é sobre pessoas fracas. É sobre organizações doentes. Não é mimimi. São 546 mil afastamentos, R$17,4 bilhões em custos e uma lei que agora obriga empresas a agir, mesmo que já tivessem bilhões de motivos para ter agido antes.
Os dados estão aí, pode verificar cada um deles. Os processos trabalhistas estão aí. A legislação está aí. A escolha é simples: mudar a cultura organizacional ou continuar pagando, com dinheiro, processos e talentos perdidos.
Porque as empresas não adoecem. Pessoas adoecem. E organizações feitas de pessoas doentes não sobrevivem. Se você não liga para nada disso, vou resumir em uma frase: adoecer seus funcionários é caro. A partir de maio de 2025, ficou mais caro ainda.
*Bruno Gonçalves, o Bruno UAU, é palestrante e empresário especialista em Experiência do Cliente, Experiência do Colaborador e felicidade corporativa com foco em resultado financeiro. Sócio do UAU Business Institute.
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