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Prevenção sistemática: a urgente mudança de paradigma para a saúde da mama

Investir em programas de prevenção e controle do câncer é essencial para garantir vidas mais saudáveis e um futuro melhor com mudança de paradigma

Dra. Maira Caleffi* ‌ Publicado em 30/04/2026, às 06h00

Mulher faz exame de toque na própria mama
Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos diagnósticos somente de câncer de mama por ano no Brasil de 2026 a 2028. - Foto: Canva Pro

As projeções indicam que o número de casos de câncer no mundo pode ultrapassar 35 milhões até 2050, com o Brasil enfrentando 78.610 novos diagnósticos de câncer de mama anualmente, o que destaca a urgência de uma abordagem preventiva na saúde pública.

O modelo atual de saúde oncológica é predominantemente reativo, resultando em diagnósticos tardios que afetam não apenas a saúde das pacientes, mas também suas famílias e a sociedade, ampliando desigualdades sociais e econômicas.

Para mudar esse cenário, é necessário um foco na prevenção e no cuidado contínuo, com investimentos em infraestrutura e programas de saúde que priorizem a detecção precoce e o manejo personalizado do câncer, visando uma abordagem mais eficaz e sustentável.

Resumo gerado por IA

As projeções globais para o cenário oncológico em um futuro próximo trazem um alerta inegável para a saúde pública: o número de casos de câncer no mundo deve checar a mais de 35 milhões em 2050.1 No Brasil, a realidade bate à porta com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) que apontam 78.610 novos diagnósticos somente de câncer de mama (o que mais mata mulheres em idade ativa) por ano.2

Diante de uma conjuntura que já é desafiadora hoje em dia, somada a essas perspectivas preocupantes, a pergunta que devemos fazer não é apenas como trataremos todas essas pessoas, mas o que estamos mudando, hoje, para evitar que o impacto seja devastador. E a nossa resposta deve vir de uma mudança de paradigma, que represente uma evolução na forma com que encaramos o manejo do câncer a nível pessoal e institucional.

Quando falamos de câncer, o tempo é uma peça-chave. Por conta disso, nosso maior inimigo hoje não é apenas a complexidade celular das neoplasias, mas o diagnóstico tardio. 

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Apesar de ter havido avanços significativos nos últimos anos, historicamente, o modelo de saúde oncológica tem sido predominantemente reativo. Isto é, os tumores acabam sendo tratados tardiamente – seja por falta de informação, recursos, infraestrutura ou acesso – o que pode interferir no prognóstico e nas chances de recuperação da paciente. E esse sistema cobra um preço humano e financeiro altíssimo.

Principalmente na América Latina, o câncer não pode ser analisado exclusivamente como um problema sanitário, mas sim como a expressão de múltiplas desigualdades estruturais.

Um diagnóstico que chega tarde transcende o consultório: ele afeta profundamente os rendimentos familiares, o emprego, a produtividade e a qualidade de vida não só da mulher em jornada oncológica, mas de toda sua rede de apoio, retroalimentando e ampliando desigualdades sociais e econômicas.

A única maneira sustentável de mudarmos esse cenário é invertendo a lógica do cuidado. Precisamos parar de olhar exclusivamente para o câncer de mama e passar a cuidar ativamente da saúde da mama. E isso exige que o foco não seja cuidar somente da doença avançada, mas sim adotar uma estratégia para a predição de risco e prevenção contínuas, que passe por maior conscientização por parte da população, mas também por um movimento intencional e sistemático das instituições de saúde em tornar a prevenção parte de sua estratégia de cuidado integral.

Cuidar da mama de forma moderna significa colocar a paciente no centro de uma jornada assistencial contínua, organizada para o momento de vida de cada indivíduo. É compreender que uma mulher jovem com histórico familiar e marcadores genéticos de alto risco precisa de rastreamento intensivo, aconselhamento genético e estratégias preventivas. É entender que a paciente que já superou o câncer há mais de cinco anos não é mais uma pessoa doente, mas alguém que busca qualidade de vida e controle em um espaço focado em vitalidade. E com essas diversas realidades, poder oferecer o que cada um desses perfis necessita para sua saúde.

A ciência nos mostra que o simples controle de fatores de risco e a adoção de hábitos de vida mais saudáveis podem reduzir significativamente as chances de desenvolvermos tumores. A prevenção, portanto, não é uma recomendação passiva; é uma atitude clínica ativa. Requer infraestrutura, precisão, equipes especializadas e um ecossistema completo que possa apoiar a jornada da mulher em todas as suas etapas.

Países e sistemas que reduzem significativamente a mortalidade são aqueles que contam com programas organizados, centros especializados e planos robustos de controle e prevenção do câncer. A doença não espera entrar na agenda dos governos, dos hospitais ou nas prioridades dos indivíduos. Portanto, investir em prevenção significa investir em vidas mais saudáveis. 

Em suma, a evolução do cuidado oncológico exige sensibilidade para tratar quem precisa, mas também, sobretudo, inteligência e estrutura para evitar que a doença dite o futuro. 

O câncer é um problema de toda a sociedade, mas a saúde, quando gerida de forma preditiva e personalizada, é a nossa melhor resposta. É hora de cuidarmos da vida, e não apenas de curarmos a doença.

* Dra. Maira Caleffi é mastologista e chefe do Núcleo Mama do Hospital Moinhos de Vento, Fundadora da FEMAMA e IMAMA (Instituto da Mama do Rio Grande do Sul), Presidente do Conselho de Diretores do IGCC (Instituto de Governança e Controle do Câncer) e Co-Fundadora e Consultora Técnica da WECONECTA, startup em HealthTech.

Referências

1 - OMS estima 35,3 milhões de novos casos de câncer em 2050. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-11/oms-estima-353-milhoes-de-novos-casos-de-cancer-em-2050>. Acesso em: 24 abr. 2026.

‌2 - Ministério da Saúde. Instituto Nacional de Câncer. Estimativa | 2026: Incidência do Câncer no Brasil. Disponível em: <https://ninho.inca.gov.br/jspui/bitstream/123456789/17914/1/Estima2026_completo%20%281%29.pdf>.

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