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Por que as mulheres rompem o ligamento cruzado anterior do joelho com mais frequência?

Fatores hormonais e anatômicos influenciam para que mulheres tenham maior incidência de lesões do ligamento cruzado anterior do joelho

Dr. Pedro Baches Jorge* Publicado em 30/07/2026, às 06h00

Dudinha sofreu uma grave lesão no joelho direito, com ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA) associada a uma lesão no menisco. - Imagem: Reprodução Instagram/ @duda_rodriguesatleta
Dudinha sofreu uma grave lesão no joelho direito, com ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA) associada a uma lesão no menisco. - Imagem: Reprodução Instagram/ @duda_rodriguesatleta

Lesões do ligamento cruzado anterior (LCA) têm se tornado mais comuns entre mulheres em diversas modalidades esportivas, com risco de rompimento até oito vezes maior em comparação aos homens, impactando a carreira de atletas e a prática esportiva em geral.

Fatores hormonais, anatômicos e biomecânicos contribuem para essa maior suscetibilidade, incluindo a frouxidão ligamentar em certas fases do ciclo menstrual e o alinhamento do quadril, que afeta a estabilidade do joelho durante movimentos intensos.

Programas de prevenção que incluem fortalecimento muscular e treinamento neuromuscular têm se mostrado eficazes na redução das lesões do LCA, destacando a importância de estratégias específicas para mulheres ativas e a necessidade de cuidados contínuos para preservar a saúde dos joelhos.

Resumo gerado por IA

Quem acompanha o esporte já deve ter percebido que as lesões do ligamento cruzado anterior (LCA) têm se tornado cada vez mais frequentes entre mulheres, tanto no alto rendimento quanto entre praticantes de atividades físicas recreativas. Futebol, vôlei, basquete, handebol, tênis e até modalidades de academia exigem movimentos que podem sobrecarregar o joelho. Mas afinal, por que elas apresentam um risco maior de sofrer essa lesão?

A resposta não está em um único fator. Hoje sabemos que existe uma combinação de características hormonais, anatômicas e biomecânicas que torna a mulher mais suscetível ao rompimento do LCA em determinadas modalidades esportivas. Dependendo do esporte praticado, esse risco pode ser de seis a oito vezes maior quando comparado ao dos homens.

Um exemplo recente foi o da atacante Dudinha, da Seleção Brasileira. Durante um amistoso contra os Estados Unidos, a atleta sofreu uma grave lesão no joelho direito, com ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA) associada a uma lesão no menisco. O diagnóstico foi confirmado por exames de imagem, e a jogadora foi submetida à cirurgia para reconstrução do ligamento. Agora, enfrentará um longo processo de reabilitação, com previsão de retorno aos gramados entre seis meses e um ano. Casos como esse evidenciam o impacto que uma lesão do LCA pode ter na carreira de um atleta e reforçam a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e de programas de treinamento voltados à redução do risco desse tipo de lesão.

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O ligamento cruzado anterior é uma das principais estruturas responsáveis pela estabilidade do joelho. Sua função é impedir o deslocamento excessivo da tíbia em relação ao fêmur e controlar os movimentos de rotação da articulação. Quando ocorre sua ruptura, o paciente costuma sentir uma dor intensa, seguida de inchaço rápido, sensação de que o joelho "saiu do lugar" e dificuldade para apoiar o peso sobre a perna.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a maioria dessas lesões não acontece após um choque com outro atleta. Grande parte dos rompimentos ocorre sem contato direto, durante mudanças bruscas de direção, desacelerações, saltos ou aterrissagens. O mecanismo mais comum é o chamado movimento em valgo, quando o joelho se desloca para dentro enquanto o corpo realiza um giro, aumentando significativamente a tensão sobre o ligamento.

Diversos fatores ajudam a explicar por que esse mecanismo ocorre com mais frequência nas mulheres. Um deles é a influência hormonal. Em determinadas fases do ciclo menstrual, há um aumento natural da frouxidão ligamentar, tornando os ligamentos temporariamente mais flexíveis e, consequentemente, mais vulneráveis às forças exercidas durante movimentos de alta intensidade.

A anatomia feminina também exerce papel importante. Em geral, as mulheres apresentam um quadril mais largo, o que altera o alinhamento entre quadril, joelho e tornozelo. Essa característica favorece uma maior inclinação do joelho para dentro durante mudanças de direção e aterrissagens, justamente um dos movimentos mais associados às lesões do LCA.

Outro aspecto frequentemente observado é o formato do intercôndilo, região do fêmur por onde passa o ligamento cruzado anterior. Nas mulheres, esse espaço costuma ser mais estreito, mantendo o ligamento mais comprimido e aumentando sua vulnerabilidade.

Além disso, estudos mostram que a resposta muscular feminina pode ser discretamente mais lenta em situações de instabilidade. Embora a diferença seja medida em milissegundos, esse pequeno intervalo pode ser suficiente para que a musculatura não consiga estabilizar o joelho antes que o ligamento seja submetido a uma carga excessiva.

É importante destacar que isso não significa que as mulheres tenham joelhos mais fracos. Significa apenas que apresentam características biológicas próprias que exigem estratégias específicas de prevenção e treinamento.

A boa notícia é que boa parte desse risco pode ser reduzida. Hoje existem programas de prevenção baseados em fortalecimento muscular, treinamento neuromuscular, exercícios de equilíbrio, propriocepção e aperfeiçoamento da técnica esportiva. Diversos estudos demonstram que essas medidas reduzem significativamente a incidência de lesões do ligamento cruzado anterior, principalmente entre mulheres.

Também avançamos muito na compreensão da estabilidade do joelho. Nos últimos anos, nossas pesquisas identificaram uma estrutura até então pouco conhecida na região anteromedial da articulação, denominada ligamento oblíquo anterior (Anterior Oblique Ligament - AOL). Os resultados mostram que essa estrutura atua em conjunto com o LCA, especialmente no controle dos movimentos de rotação e do estresse em valgo, justamente os mecanismos mais relacionados às rupturas do ligamento cruzado anterior.

Esse conhecimento também possibilitou o desenvolvimento de novas estratégias cirúrgicas para pacientes que necessitam de reconstrução do LCA. Em casos selecionados, é possível associar a reconstrução tradicional ao reforço da região anteromedial do joelho, buscando melhorar a estabilidade rotacional e reduzir o risco de novas lesões.

Entretanto, nenhuma técnica é mais eficiente do que evitar que a lesão aconteça. Independentemente do nível esportivo, toda mulher fisicamente ativa deve incluir em sua rotina exercícios voltados ao fortalecimento da musculatura dos membros inferiores, treinamento do controle dos movimentos e orientação adequada durante a prática esportiva.

A prevenção continua sendo nossa maior aliada. Não podemos modificar fatores hormonais nem a anatomia de cada pessoa, mas podemos preparar o corpo para responder melhor às exigências do esporte. E esse cuidado faz toda a diferença para preservar a saúde dos joelhos e permitir que mais mulheres continuem praticando atividade física com segurança ao longo da vida.

* Dr. Pedro Baches Jorge é médico ortopedista, especialista em Cirurgia do Joelho, Medicina Esportiva e Artroscopia, com pós-doutorado pela Santa Casa de São Paulo. É professor permanente da pós-graduação do Hospital Sírio-Libanês, onde também atua como diretor do Núcleo de Cirurgia do Joelho, além de ser fundador do BS Knee Research. Integra o Grupo de Trauma Esportivo da Santa Casa de São Paulo, desenvolvendo atividades assistenciais, acadêmicas e de pesquisa. É responsável pelo Núcleo de Medicina do Joelho da Clínica SO.U e atua no corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês. É diretor científico da Sociedade Brasileira de Artroscopia e Trauma do Esporte (SBRATE) e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ), com participação ativa no desenvolvimento científico da área.

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