Mariana Kotscho
Busca
» OBESIDADE INFANTIL

Menos movimento, mais risco: o avanço silencioso da obesidade infantil no Brasil

Cardiologista explica por que a falta de movimento impacta a saúde cardiovascular na infância e defende a introdução precoce de atividade física na rotina

Redação* Publicado em 30/04/2026, às 06h00

Criança bebe refrigerante direto da garrafa.
No Brasil, quase 4 em cada 10 crianças e adolescentes estão acima do peso, proporção quase o dobro da média global. - Foto: Canva Pro

A obesidade infantil se tornou uma emergência de saúde pública no Brasil, com quase 40% das crianças e adolescentes acima do peso, o que representa cerca de 17 milhões de jovens, sendo 7 milhões já obesos. Essa situação gera preocupações sobre as consequências a longo prazo para a saúde dessas crianças.

Estudos indicam que crianças com sobrepeso têm até 75% mais chances de se tornarem obesas na adolescência, perpetuando problemas de saúde como hipertensão e resistência à insulina desde cedo. O sedentarismo também é alarmante, com 84% dos adolescentes não atingindo os níveis recomendados de atividade física.

Especialistas defendem que a prevenção deve começar na infância, promovendo hábitos saudáveis e atividades físicas acessíveis, como a calistenia. A intervenção precoce é crucial para evitar que uma geração inteira enfrente riscos de doenças cardiovasculares no futuro.

Resumo gerado por IA

A obesidade infantil deixou de ser uma tendência para se consolidar como uma das principais emergências de saúde pública no Brasil e no mundo. Hoje, o excesso de peso já supera a desnutrição entre crianças e adolescentes em escala global, um marco que acende o alerta entre especialistas.

No Brasil, o cenário é igualmente preocupante. Dados recentes indicam que quase 4 em cada 10 crianças e adolescentes estão acima do peso, proporção quase o dobro da média global. Em números absolutos, isso representa cerca de 17 milhões de jovens com sobrepeso ou obesidade, sendo ao menos 7 milhões já dentro do quadro de obesidade.

O problema começa cedo e tende a se perpetuar. Estudos mostram que crianças acima do peso têm até 75% mais chance de se tornarem adolescentes obesos, e a grande maioria mantém a condição na vida adulta.

Veja também

Além da questão estética, os impactos são clínicos e progressivos. Hipertensão, resistência à insulina, colesterol elevado e até gordura no fígado já aparecem cada vez mais cedo, antecipando doenças que antes eram restritas à vida adulta.

Outro fator crítico é o comportamento: o sedentarismo infantil cresce de forma consistente. Entre adolescentes, por exemplo, 84% não atingem o nível recomendado de atividade física, reforçando um ciclo que combina baixa movimentação e hábitos alimentares inadequados.

Diante desse cenário, especialistas defendem uma mudança de abordagem: a prevenção precisa começar na infância e não apenas quando surgem os primeiros sinais de doença.

“O coração não adoece de uma hora para outra. Ele vai sendo impactado ao longo dos anos, e esse processo muitas vezes começa ainda na infância”, explica o cardiologista Dr. Raphael Boesche Guimarães.

Segundo o médico, um dos maiores desafios atuais é justamente a falta de movimento no dia a dia das crianças.

“A infância ficou mais parada. E isso tem impacto direto na saúde cardiovascular, porque o corpo precisa de estímulo para se desenvolver de forma equilibrada.”

Nesse contexto, atividades físicas acessíveis e adaptáveis à rotina ganham relevância, especialmente aquelas que não dependem de estrutura ou alto custo. É o caso da calistenia, prática baseada no uso do próprio peso corporal.

“A calistenia é uma estratégia interessante porque trabalha força, coordenação e resistência de forma integrada, e pode ser aplicada de maneira lúdica para crianças”, afirma o cardiologista.

Mais do que desempenho, o foco está na formação de hábitos.

“Não se trata de treino intenso ou performance. O mais importante é criar uma relação positiva com o movimento desde cedo.”

Na prática, isso pode significar pequenas mudanças na rotina: reduzir o tempo de tela, incentivar atividades ao ar livre e incluir exercícios simples no dia a dia — muitas vezes dentro de casa.

Para o especialista, o exemplo familiar também tem papel central nesse processo.

“A criança aprende muito mais pelo que vê do que pelo que ouve. Quando o movimento faz parte da rotina da família, ele deixa de ser obrigação e passa a ser natural.”

Com projeções indicando que até 50% das crianças e adolescentes brasileiros podem estar com sobrepeso ou obesidade nas próximas décadas, a discussão deixa de ser apenas individual e passa a envolver escolas, famílias e políticas públicas.

O consenso entre especialistas é claro: quanto mais cedo a intervenção, maiores as chances de reverter o cenário e evitar que uma geração inteira carregue, desde a infância, os riscos de doenças cardiovasculares.

“Mais do que formar crianças ativas, estamos formando adultos mais saudáveis. Quando o movimento entra cedo na rotina, ele deixa de ser obrigação e passa a fazer parte da vida. Práticas como a calistenia ajudam justamente nisso: são acessíveis, adaptáveis e podem ser incorporadas de forma leve no dia a dia das famílias”, finaliza o cardiologista Dr. Raphael Boesche Guimarães.

*Edição por Lina Santiago

Quer incentivar este jornalismo sério e independente? Você pode patrocinar uma coluna ou o site como um todo. Entre em contato com o site clicando aqui.