Médico geneticista Paulo Zattar mostra como testes acessíveis e informação confiável podem transformar a vida de milhares de brasileiros
Redação Publicado em 17/12/2025, às 06h00

O médico geneticista Dr. Paulo Zattar Ribeiro destaca a importância do acesso a testes genéticos e informações confiáveis, afirmando que compreender a genética deve ser um direito universal, impactando diretamente a prevenção de doenças e decisões na reprodução assistida.
Ele observa que, apesar do crescimento no acesso a testes genéticos, a falta de conhecimento adequado pode levar a interpretações errôneas, ressaltando a necessidade de acompanhamento médico especializado para evitar danos à saúde.
Zattar defende a inclusão da genética no Sistema Único de Saúde (SUS) para beneficiar populações vulneráveis, e recomenda fontes confiáveis para aprendizado sobre genética, enfatizando que a área está em transformação e deve se tornar uma ferramenta essencial na medicina preventiva.
A genética deixou de ser um terreno distante, restrito a laboratórios e pesquisas complexas. Hoje, ela ocupa espaço no consultório, nas decisões de saúde e, principalmente, na rotina de prevenção de milhares de famílias brasileiras. Esse avanço foi tema central de uma conversa profunda entre o médico geneticista Dr. Paulo Zattar Ribeiro, referência nacional em oncogenética e pesquisador da USP, com a também médica Lu Haddad, apresentadora do canal FalaLu! no YouTube.
Ao longo da entrevista, Zattar deixa bem claro que entender a genética não é luxo, é um direito. E o impacto disso pode definir desde a prevenção do câncer, passando pela reprodução assistida, até o diagnóstico precoce de condições como autismo e doenças hereditárias raras.
Logo no início da conversa, o médico reforça que o acesso aos testes genéticos vem crescendo, mas o conhecimento sobre eles ainda não acompanha o mesmo ritmo. “A gente está vendo um crescimento nesse mercado e também uma enchente de informações. E sempre que existe uma enchente como essa, existem boas e más informações convivendo ao mesmo tempo”, alerta.
Ele enfatiza a importância de orientação para evitar erros comuns, como interpretar resultados sem acompanhamento médico: “Não existe genética sem médico geneticista. Se alguém te explicar genética sem ser médico geneticista, vai ser raso.”
Segundo Zattar, identificar mutações que aumentam o risco de câncer, como BRCA1 e BRCA2, permite que famílias inteiras recebam acompanhamento adequado, façam cirurgias preventivas e descubram doenças ainda na fase inicial, quando são altamente tratáveis.
Um dos pontos mais contundentes da entrevista aparece quando Zattar fala sobre o impacto da investigação genética no autismo. “Toda criança com autismo deveria ter o direito de passar num médico geneticista e avaliar o teste genético”, afirma.
O especialista explica que o autismo pode ser sindrômico (acompanhado de características físicas ou outras alterações) ou não sindrômico, e que diferentes testes são indicados conforme quadro clínico, histórico familiar e sinais específicos.
Ele detalha os três exames mais usados:
Além de ajudar no diagnóstico, esses exames podem orientar tratamentos, identificar síndromes que exigem cuidados específicos e, ainda, auxiliar famílias que querem saber o risco de recorrência em futuras gestações.
Ao abordar testes genéticos para reprodução, Zattar compartilha relatos que mostram o peso dessas decisões. Ele conta a história de um pai que perdeu todos os filhos para o câncer em idade jovem. “Ele virou para mim e falou assim: ‘Paulo, meu sonho é ter outros filhos, mas eu não consigo conceber o risco de 50% de ter um filho que vai passar pelo sofrimento que meus outros filhos passaram e que eu estou passando.’” Em seguida, o pai completou:
“Não é uma escolha estética de embrião, eu não estou descartando um filho meu. Eu estou permitindo que o meu filho tenha mais saúde, mais qualidade de vida.”
Para Zattar, casos assim mostram que muitas discussões sobre ética e religião precisam considerar a realidade de quem vive situações extremas. Ele defende que, no futuro, doenças ultragraves poderão ser amplamente prevenidas com testes de compatibilidade genética.
Até mesmo os kits de DNA vendidos pela internet também entraram na pauta. Eles vêm ficando bem populares, graças a divulgação de famosos e produção de conteúdo feitas por influencers, para descobrir heranças genéticas e a origem. Mas informações demais também vem carregadas de riscos, como informações falsas, por exemplo. Paulo é direto ao afirmar que informação sem filtro pode causar danos: para ele, testes que prometem respostas rápidas sem acompanhamento podem gerar pânico, interpretações equivocadas ou até um falso senso de segurança.
Ele recomenda que qualquer resultado passe pela análise de um profissional capacitado. Também alerta sobre limitações desses exames, que não substituem avaliação médica completa.
Zattar também destaca outro ponto importante: a genética precisa chegar ao SUS de forma estruturada.
Ele próprio atua na USP de Ribeirão Preto na área de oncogenética e reforça a necessidade de que o diagnóstico correto esteja disponível para populações mais vulneráveis. Em alguns casos, descobrir uma mutação significa detectar um câncer de mama anos antes que apareça em exames de imagem.
Para quem quer aprender mais sobre genética, sejam profissionais ou leigos, Zattar cita fontes confiáveis, como o site da Sociedade Brasileira de Genética Médica (SBGM) e o podcast que apresenta ao lado da colega e também médica Lisandra Letícia Palaro. “Para o profissional da área da saúde, no site da SBGM a gente tem vários portfólios, mas para a população leiga ou para profissional que queira se atualizar tem o nosso podcast que chama @podaros. A gente tem vários episódios sobre câncer, sobre reprodução, teste do pezinho, cariótipo, etc. Falamos sobre várias formas de estudar e entender a nossa genética.”
A entrevista mostra uma área em plena transformação. A genética, que antes era restrita a poucos, deve se tornar uma das principais ferramentas de prevenção e individualização do cuidado médico. E com base na forma didática e acolhedora com que Paulo Zattar traduz temas tão complexos, o futuro da medicina se mostra altamente técnico, mas também cada vez mais empático.
A entrevista com o Dr. Paulo Zattar está disponível no Youtube, neste LINK.
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