Mariana Kotscho
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Como os avanços científicos estão redefinindo o cuidado no câncer de mama

Especialistas apontam que a personalização do tratamento e a participação do paciente nas decisões aumentam a adesão e transformam a experiência ao longo do cuidado

Redação* Publicado em 09/03/2026, às 06h00

Mulher com camiseta azul e fita rosa da campanha Outubro Rosa apalpa o seio.
Além de viver mais, é possível viver melhor durante o tratamento de câncer de mama, preservando qualidade de vida. - Foto: Canva Pro

A Organização Mundial da Saúde estima que uma em cada cinco pessoas terá câncer ao longo da vida, com o Brasil prevendo cerca de 781 mil novos casos anuais até 2028, tornando a doença uma das principais causas de morte no país.

Avanços na medicina, como tratamentos personalizados e tecnologias menos invasivas, têm contribuído para a redução da mortalidade e melhor qualidade de vida para os pacientes, permitindo que mantenham suas rotinas durante o tratamento.

A oncologia moderna foca na individualização do tratamento e na minimização dos impactos na vida dos pacientes, com dados mostrando que 50% dos pacientes da rede privada avaliam sua qualidade de vida como boa durante o tratamento, apesar dos desafios enfrentados.

Resumo gerado por IA

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada cinco pessoas terá câncer ao longo da vida. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima cerca de 781 mil novos casos por ano até 2028 e aponta que a doença se aproxima das cardiovasculares como a principal causa de morte no país.

Neste mês de março, em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, o debate sobre a saúde feminina ganha ainda mais relevância, diante de um cenário em que, se por um lado o número de diagnósticos cresce, por outro, a ciência avança. Segundo a especialista Dra Andrea Morais Borges, médica titular do Centro Paulista de Oncologia (CPO) e oncologista do setor de Mastologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os avanços científicos, por meio de aplicações mais cômodas, por exemplo, têm impacto direto nos desfechos clínicos. Hoje, além de viver mais, pacientes com câncer podem atravessar esse momento mantendo a rotina e com mais qualidade de vida.

“As novas tecnologias e tratamentos têm aumentado a sobrevida dos pacientes. Dados recentes mostram redução da mortalidade por câncer, em grande parte em função dessa evolução e da personalização do cuidado. Estamos conseguindo oferecer terapias menos genéricas e mais direcionadas a quem realmente precisa”, detalha Andrea.

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Essa mudança também se reflete na forma como o tratamento é conduzido. Se antes o foco estava exclusivamente no controle da doença, hoje a qualidade de vida integra o plano terapêutico desde o início.

“A oncologia evoluiu muito nos últimos anos e falamos cada vez mais em medicina de precisão. Isso significa individualizar não apenas o diagnóstico, mas também o tratamento, de acordo com o perfil biológico e molecular de cada paciente, além de considerar idade, comorbidades e questões pessoais. A paciente passou a ser um pilar central nas decisões”, explica a oncologista. “Um dos marcos desta evolução é a possibilidade de uma administração rápida das medicações sob a pele, em poucos minutos. Isso permite que a paciente mantenha suas atividades diárias e estilo de vida”.

Na prática, essa transformação pode ser percebida por quem enfrenta a doença. A analista de Recursos Humanos, Gislaine Cristina dos Santos, de 38 anos, viveu essa experiência. Diagnosticada no início de 2025 com câncer de mama hormônio-positivo, ela passou por cirurgia, quimioterapia e concluiu a radioterapia em fevereiro.

“Eu senti um nódulo durante o banho. Na hora, fiquei com medo, mas achei que pudesse ser algo hormonal. Esperei algumas semanas e, como não diminuía, procurei a mastologista. Quando veio o diagnóstico, meu maior medo não era morrer, porque a médica explicou que era tratável, mas perder o cabelo e sofrer muito com os efeitos da quimioterapia. Eu temia não ter qualidade de vida nesse período”, relembra.

A rotina mudou, mas não da forma que ela imaginava. “No começo, era exame quase todos os dias. Se eu não estava fazendo, estava marcando consulta ou indo ao hospital. Essa fase foi intensa. Fora isso, tentei manter minha vida o mais normal possível. Só deixava de trabalhar no dia da infusão da quimioterapia. No dia seguinte, já estava de volta.”

Segundo Andrea, a possibilidade de manter atividades profissionais e pessoais está diretamente ligada à evolução dos tratamentos e à personalização do cuidado. “Quando conseguimos adaptar a terapia a uma rotina mais factível, seja com menos efeitos colaterais, menor tempo de infusão ou intervalos mais adequados, aumentamos a adesão ao tratamento. E, quanto maior a adesão, melhores tendem a ser os resultados.”

Gislaine atribui parte dessa experiência à segurança transmitida pela médica. “Ela sempre me passou muita tranquilidade e disse que eu não precisava deixar de viver. Continuei fazendo academia, vendo minha família e saindo de casa, claro, com alguns cuidados. Isso me deu muita força. Hoje avalio minha qualidade de vida durante o tratamento como excelente. Foi muito mais tranquilo do que imaginei.”

Para a oncologista, olhar para além da doença é essencial. “Precisamos analisar o paciente de forma integral, considerando trabalho, família, rotina e expectativas. Nem sempre é possível evitar mudanças, mas podemos minimizar o impacto sem comprometer a eficácia do tratamento. Hoje não pensamos apenas em tratar o câncer, mas em como conduzir essa jornada com o menor impacto possível na vida da paciente.”

Essa percepção também aparece nos dados. De acordo com a pesquisa “Um olhar sobre o câncer de mama no Brasil”, realizada em parceria entre Roche, Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama) e Instituto Oncoguia, 50% dos pacientes da rede privada avaliam que tiveram boa qualidade de vida durante o tratamento.

O impacto na vida profissional também é apontado como uma barreira significativa à qualidade de vida por 27% dos usuários da rede privada. Já as limitações na vida social decorrentes do câncer afetaram a qualidade de vida de 15% dos pacientes da rede privada.

Em um cenário de aumento da incidência, a mensagem é clara: o câncer continua sendo um desafio crescente de saúde pública, mas a inovação científica, posologias mais cômodas e a personalização do cuidado têm transformado a experiência de quem enfrenta a doença. Hoje, além de viver mais, é possível viver melhor durante o tratamento, preservando autonomia, rotina e qualidade de vida.

* Edição por Lina Santiago

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