Combinar álcool e energético pode intensificar intoxicação sem sinais
Dr. Guilherme Olival* Publicado em 10/02/2026, às 06h00

Durante o Carnaval, a combinação de álcool e energéticos tem se tornado um risco crescente para a saúde mental, pois essa mistura pode intoxicar o cérebro sem os sinais habituais de embriaguez, aumentando a vulnerabilidade a problemas neurológicos.
O consumo excessivo de álcool prejudica a qualidade do sono, essencial para a saúde cerebral, e pode levar a crises de pânico e outros distúrbios mentais, multiplicando os riscos associados ao uso dessas substâncias durante as festividades.
Para mitigar os efeitos negativos, recomenda-se a hidratação constante, o uso de protetores auriculares e a atenção aos sinais do corpo, além de promover uma experiência de festa mais consciente e saudável, respeitando os limites físicos e emocionais.
Carnaval é época de festa, alegria, blocos e desfiles. No entanto, muitas pessoas acreditam que, nesses momentos, é possível exagerar e forçar o corpo sem consequências futuras. A inocência ou até a impulsividade da juventude muitas vezes ignora que há impactos importantes para o sistema nervoso central, seja pelo esforço físico excessivo, pela privação de sono, pelo consumo elevado de bebidas alcoólicas e outras substâncias ou ainda pela exposição prolongada a sons intensos.
Um perigo que tem ganhado destaque nos últimos anos é a mistura de álcool com energético, considerada um risco invisível para o cérebro. Essas duas substâncias atuam de formas diferentes: enquanto o álcool deprime o sistema nervoso central, o energético o estimula. O problema é que essa combinação intoxica o cérebro sem provocar, de imediato, os sinais clássicos de embriaguez, como sono, moleza ou lentidão. O energético não protege o cérebro. Ele apenas mascara os efeitos do álcool, permitindo uma intoxicação mais intensa sem que a pessoa perceba.
O álcool atua no sistema gabaérgico, reduzindo a atividade cerebral, especialmente nas regiões frontais, responsáveis pela tomada de decisão, inibição e autocontrole. Ao misturar energético à bebida, ocorre uma estimulação artificial do cérebro, que impede a percepção do cansaço e prejudica o sono reparador.
No que se refere ao sono, o álcool desestrutura sua arquitetura, reduzindo significativamente sua qualidade. É durante o sono profundo que o cérebro elimina toxinas, consolida memórias e regula emoções. Quando esse processo é interrompido, o cérebro fica mais vulnerável, aumentando o risco de ansiedade intensa, confusão mental, irritabilidade e lapsos de memória. Não é raro o atendimento de pacientes que desenvolvem crises de pânico após essa combinação. Nesse cenário, o risco não se soma, ele se multiplica, aumentando exponencialmente a chance de eventos neurológicos.
A festa boa acaba na quarta-feira, não no pronto-socorro.
O Carnaval também é uma oportunidade de aprender sobre ritmo. Essa é a palavra chave. É preciso desenvolver o que chamamos de inteligência biológica, respeitando os limites do próprio corpo. A hidratação constante ajuda a proteger o organismo de vários desses efeitos. Intercalar um copo de água para cada dose de álcool não anula os efeitos da bebida, mas reduz a desidratação e ajuda a manter a pressão arterial mais estável. Além disso, manter a glicemia estável, evitar o consumo de álcool em jejum e intercalar períodos longe do estímulo sonoro intenso são atitudes igualmente importantes.
Uma outra possibilidade para ajudar durante a folia é o uso de protetores auriculares. Eles reduzem a intensidade sonora, diminuem a fadiga e o estresse cerebral, além de ajudar na prevenção de lesões auditivas.
Essas medidas exigem atenção aos sinais que o corpo apresenta em momentos de esforço, como tontura, mal-estar, confusão mental ou dor de cabeça. Ao perceber qualquer sinal de mau funcionamento do organismo, é fundamental reduzir os estímulos, diminuir os intoxicantes e permitir que o corpo se restaure. Assim como a música, o cérebro também precisa de momentos de silêncio.
Vale lembrar que, na maioria das vezes, a dor de cabeça após festas está associada à ressaca, à desidratação ou à tensão muscular. No entanto, quando surge de forma intensa, diferente do habitual ou acompanhada de outros sintomas neurológicos, pode ser um sinal de alerta e merece atenção. O Carnaval não anula esses sinais, ao contrário, pode até potencializá-los. Ao mesmo tempo, a festa, a alegria, a música e a dança são estímulos importantes para o cérebro. Eles favorecem a liberação de serotonina e de outros neurotransmissores ligados ao bem-estar e à sensação de alegria. Por isso, é fundamental aproveitar esses momentos de forma consciente, para que a experiência seja realmente prazerosa e saudável.
* Dr. Guilherme Olival é neurologista da BP – Beneficência Portuguesa de São Paulo.
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