Cardiologista explica por que reduzir o açúcar na gestação e na primeira infância pode proteger o coração na vida adulta
Redação Publicado em 08/12/2025, às 06h00

Um estudo recente publicado no British Medical Journal destaca que os primeiros 1000 dias de vida, da concepção aos dois anos, são cruciais para o risco de doenças cardiovasculares na vida adulta, especialmente em indivíduos que passaram por racionamento de açúcar durante esse período.
Os dados indicam que a exposição excessiva ao açúcar nos primeiros anos pode levar a problemas como resistência à insulina, hipertensão e diabetes, moldando preferências alimentares que persistem na vida adulta.
Especialistas recomendam medidas para proteger gestantes e crianças pequenas do consumo excessivo de açúcar, incluindo a promoção de uma alimentação saudável e a implementação de políticas públicas como impostos sobre bebidas açucaradas e rotulagem clara para alimentos infantis.
Um novo estudo publicado no British Medical Journal (BMJ) reacende uma discussão central na saúde pública: os “primeiros 1000 dias, da concepção aos dois anos de idade, podem determinar parte do risco de doenças cardiovasculares ao longo da vida. A pesquisa analisou pessoas que, por razões históricas ou políticas, viveram racionamento de açúcar nesse período e comparou seus desfechos cardíacos na vida adulta com os de indivíduos não expostos.
Segundo o cardiologista Dr. Raphael Boesche Guimarães, o estudo reforça um entendimento crescente na medicina preventiva. “Os primeiros 1000 dias são uma janela crítica. O metabolismo, a formação dos vasos sanguíneos e até as preferências alimentares estão sendo moldados. Excesso de açúcar nessa fase tem impacto que pode permanecer por décadas”, afirma.
O período inicial de vida é o mais sensível para o desenvolvimento de órgãos e sistemas. Alterações nutricionais podem influenciar:
Dr. Raphael reforça: “Quando expomos um bebê, ainda no útero ou nos primeiros anos, a muito açúcar, estamos ensinando o corpo dele a trabalhar em um modo inflamatório e resistente à insulina. Isso aumenta o risco de hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares mais tarde.”
Por motivos éticos, não é possível controlar rigorosamente dietas de gestantes e bebês por décadas. Assim, pesquisadores analisaram um contexto real de racionamento de açúcar que atingiu parte da população, comparando esses indivíduos com grupos não afetados.
“Esse tipo de estudo não é perfeito, mas é extremamente útil”, explica o cardiologista. “Ele mostra o que acontece na vida real, fora do ambiente controlado dos laboratórios. Isso fortalece nossa compreensão sobre o papel da nutrição precoce na saúde”.
Evidências acumuladas mostram que o consumo exagerado de açúcares adicionados, especialmente em bebidas, aumenta o risco de:
“Quando uma criança cresce com preferência por alimentos muito doces, esse hábito costuma persistir. E é assim que começamos a construir uma vida adulta mais vulnerável a doenças metabólicas e cardíacas,” afirma Dr. Raphael.
Entre os possíveis mecanismos apontados pelos especialistas, reduzir açúcar cedo faz diferença, resultando em:
O cardiologista reforça: “O açúcar em excesso não afeta apenas o peso. Ele altera vias hormonais, inflamatórias e metabólicas que estão sendo construídas nesse período. Quando você reduz açúcar cedo, está literalmente programando um coração mais saudável para o futuro.”
O trabalho não prova causalidade absoluta, já que o racionamento pode ter vindo acompanhado de outras mudanças na alimentação. Mas ele reforça tendências já bem estabelecidas.
“Não estamos defendendo racionamento, claro,” comenta o médico. “O que esse estudo destaca é a importância de proteger gestantes e crianças pequenas do consumo excessivo de açúcar, um consenso sólido entre especialistas.”
Na prática, as recomendações para gestantes e quem planeja engravidar são:
Para bebês (0–6 meses):
De 6 a 24 meses:
A partir de 2 anos:
Dr. Raphael destaca um ponto central: “Não se trata de demonizar o açúcar, mas de entender que a exposição precoce tem peso enorme. Se cuidarmos dos primeiros anos, reduzimos a chance de doenças crônicas no futuro, inclusive as cardiovasculares.”
O estudo também conversa com estratégias populacionais já em curso:
“Educação alimentar, rotulagem eficiente e menos marketing para crianças são medidas comprovadas,” diz o cardiologista. “Elas ajudam famílias a fazer melhores escolhas e reduzem desigualdades que impactam diretamente a saúde cardiovascular.”
Os primeiros 1000 dias formam o alicerce da saúde ao longo da vida. E, segundo especialistas, reduzir açúcar nesse período é uma das intervenções mais potentes para prevenir doenças do coração. “Se quisermos adultos com corações mais saudáveis, precisamos começar no começo, literalmente. É nos primeiros 1000 dias que a prevenção cardiovascular realmente começa, reforça o médico.
Quer incentivar este jornalismo sério e independente? Você pode patrocinar uma coluna ou o site como um todo. Entre em contato com o site clicando aqui.