Mariana Kotscho
Busca
» HPV

A desinformação sobre HPV entre homens é uma realidade que precisa mudar

Estudo revela que 64% dos homens desconhecem relação entre HPV e câncer, evidenciando que isso precisa mudar

Dra. Márcia Datz Abadi * Publicado em 15/01/2026, às 06h00

Profissional de saúde segura cubos que formam a sigla HPV
O HPV é um vírus sexualmente transmissível que afeta homens e mulheres, mas muitos homens possuem crenças equivocadas sobre o tema. - Foto: Canva Pro

Uma pesquisa revelou que 64% dos homens desconhecem a relação entre HPV e câncer, evidenciando um grave problema de saúde pública que pode comprometer a prevenção de cânceres e a qualidade de vida.

Cerca de 45% dos entrevistados acreditam que o uso de preservativos oferece proteção total contra o HPV, ignorando que o vírus pode ser transmitido por contato pele a pele, o que aumenta o risco de infecção.

A vacinação contra o HPV está disponível para jovens de até 19 anos no Sistema Único de Saúde e para pessoas de 9 a 45 anos na rede privada, mas é essencial que essa prevenção seja acompanhada de cuidados médicos regulares para reduzir o risco de complicações.

Resumo gerado por IA

Os dados recém-divulgados sobre o conhecimento masculino em relação ao HPV expuseram um hiato preocupante entre percepção e realidade. Não se trata de um detalhe estatístico: é um problema de saúde pública com impacto direto na prevenção de cânceres, na qualidade de vida e na sustentabilidade do sistema de saúde. A pesquisa realizada pela MSD com apoio da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) com 300 homens das cinco regiões do Brasil, revelou um cenário de alerta: quando 64% dos homens desconhecem a relação entre HPV e câncer, e quase metade (45%) acredita que a camisinha oferece proteção total contra essa infecção, que é uma das ISTs mais comuns no mundo, temos um retrato claro de como mitos persistentes comprometem decisões de cuidado e atrasam intervenções eficazes.

Como médica, vejo três pontos centrais nesse cenário:

  1. O HPV não é apenas “um problema feminino”

O HPV é um vírus sexualmente transmissível que afeta homens e mulheres. Em homens, os sinais mais comuns incluem verrugas genitais, mas a maior preocupação são os cânceres relacionados ao vírus. Estima-se que cerca de um em cada cinco homens acima de 15 anos esteja infectado por ao menos um tipo de HPV que pode causar câncer. O HPV está associado a aproximadamente 5% de todos os casos de câncer no mundo. Ignorar esse dado por falta de informação ou por crença de que “isso não é comigo” é colocar a saúde em risco.

Veja também 

  1. Preservativo ajuda, mas não zera o risco

O uso adequado da camisinha reduz a exposição, porém não elimina totalmente a transmissão do HPV. Isso ocorre porque o vírus pode ser transmitido por contato pele a pele em áreas não cobertas pelo preservativo. A falsa sensação de segurança total leva homens a negligenciarem a vacinação contra o HPV e o acompanhamento médico para rastreio, pilares que, combinados ao uso correto de preservativo, formam a estratégia mais robusta de prevenção.

  1. Vacinação e rotina de acompanhamentos médicos são essenciais

Mais de 80% das pessoas sexualmente ativas poderão ter contato com o HPV até os 45 anos. A vacinação está disponível no Programa Nacional de Imunização (PNI) para meninas e meninos de 9 a 14 anos, tendo sido estendida até o fim do primeiro semestre de 2026 para pessoas até os 19 anos de idade, e na rede privada para pessoas de 9 a 45 anos. A prevenção está disponível. Quando associada a uma rotina de cuidados e acompanhamento médico, a vacinação pode reduzir significativamente o risco de infecção persistente e de evolução para lesões pré-cancerosas e câncer.

Por que os homens ficam para trás?

Os achados mostraram que, embora 65% dos homens digam saber o que é HPV, o vírus sequer aparece entre as ISTs mais lembradas por eles, atrás de HIV, AIDS, sífilis e gonorreia. Mesmo em estratos socioeconômicos mais altos, persistem crenças equivocadas. Soma-se a isso uma rotina médica restrita, centrada no clínico geral, com pouca diversificação de especialidades de acordo com o perfil de risco. Há também fatores culturais: tabus sobre sexualidade, vergonha de discutir sintomas genitais, crenças de invulnerabilidade e a ideia de que prevenção é secundária frente a prioridades como longevidade e performance.

Iniciativas de conscientização que envolvem múltiplos públicos, inclusive homens, e que utilizam vozes de referência, como esportistas e celebridades, são estratégicas para ampliar o alcance da mensagem e quebrar estigmas, fazendo o público-alvo se aproximar das mensagens de conscientização.

Em última análise, a prevenção do HPV em homens é um campo onde ciência, cultura e prática clínica se encontram. A evidência é clara: prevenção, informação qualificada e acompanhamento médico podem reduzir a incidência da infecção pelo HPV, o sofrimento e os custos a ela associados.

* Dra. Márcia Datz Abadi é diretora médica da MSD Brasil.

Quer incentivar este jornalismo sério e independente? Você pode patrocinar uma coluna ou o site como um todo. Entre em contato com o site clicando aqui.