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Por que as experiências analógicas ainda importam em um mundo digital?

Entenda por que experiências simples, como atividades manuais, são fundamentais para o desenvolvimento das crianças em um mundo digital

Larissa Fonseca* Publicado em 23/08/2026, às 06h00

As crianças devem experimentar as coisas que nenhuma tecnologia consegue viver por nós, como plantar alguma coisa. - Foto: Canva Pro
As crianças devem experimentar as coisas que nenhuma tecnologia consegue viver por nós, como plantar alguma coisa. - Foto: Canva Pro

A tecnologia oferece inúmeras possibilidades para crianças, mas é crucial que elas também vivenciem experiências analógicas que promovem habilidades essenciais para o desenvolvimento humano, como esperar e cooperar.

Embora o acesso à informação digital seja valioso, a verdadeira aprendizagem ocorre através da prática e da interação pessoal, que cultivam competências como empatia e criatividade.

É necessário encontrar um equilíbrio entre o uso de tecnologias e a preservação de experiências humanas fundamentais, garantindo que as crianças estejam preparadas para um futuro digital sem perder a conexão com o mundo real.

Resumo gerado por IA

Uma criança pode conversar por vídeo com alguém que está do outro lado do mundo. Pode encontrar em segundos a resposta para uma pergunta, desenhar sem papel, ler centenas de livros sem carregar nenhum deles, escrever sem lápis e conhecer lugares que talvez nunca tenha visitado.

Nunca tivemos tantas possibilidades ao alcance das mãos. E isso é extraordinário.

Porém, enquanto ensinamos crianças e adolescentes a navegar por esse novo mundo, existe algo ainda mais importante que não podemos permitir que eles deixem de experimentar que são as coisas que nenhuma tecnologia consegue viver por nós. O cheiro de um livro novo. A textura da tinta nas mãos. A expectativa de uma carta ou de um presente que ainda vai chegar. Uma conversa olhando nos olhos. Um jogo de tabuleiro em que é preciso esperar a própria vez. Fazer um bolo e descobrir que não existe um botão para fazê-lo ficar pronto mais rápido. Subir em uma árvore. Plantar alguma coisa. Montar um brinquedo. Desenhar sem a possibilidade de apertar "desfazer". Perder uma partida. Inventar uma brincadeira porque ninguém ofereceu uma pronta. São experiências aparentemente simples, mas não são pequenas.

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Enquanto o mundo digital oferece velocidade, estímulos e possibilidades quase infinitas, a vida concreta continua exigindo habilidades muito antigas: esperar, observar, tocar, conversar, cooperar, persistir, cuidar.

E compreender isso não significa ser contra a tecnologia. Aliás, não precisamos escolher entre o digital e o analógico. Precisamos garantir que um não elimine o outro.

A tecnologia pode ampliar experiências, mas não deveria substituir aquelas que são fundamentais para o desenvolvimento humano.

Uma criança aprende muito quando assiste a um vídeo ensinando a plantar uma semente. Mas aprende algo diferente quando coloca a mão na terra, rega, espera durante dias e finalmente percebe uma pequena folha surgindo. Pode aprender as regras de um jogo pela internet. Mas há aprendizagens que acontecem somente quando está sentada à mesa com outras pessoas, precisa esperar sua vez, lidar com uma derrota, comemorar sem humilhar quem perdeu e continuar convivendo depois que a partida termina. Pode enviar dezenas de mensagens por dia. Mas conversar pessoalmente exige perceber o olhar, o tom de voz, a expressão facial, o silêncio e aquilo que o outro talvez não tenha conseguido dizer. São experiências diferentes e com ganhos diferentes. E o desenvolvimento humano precisa das duas.

O mundo digital costuma oferecer respostas prontas, a vida, não.

Quando uma criança encontra um problema em um jogo digital, muitas vezes pode procurar imediatamente um tutorial. Quando não sabe fazer alguma coisa, encontra um vídeo explicando. Quando surge uma dúvida, pergunta a um mecanismo de busca ou, cada vez mais, a uma inteligência artificial.

Ter acesso ao conhecimento é uma conquista extraordinária. Mas saber encontrar uma resposta não é a mesma coisa que saber construir uma resposta.

Pensar exige tempo. Criar exige espaço. Resolver problemas exige tolerar, por algum tempo, o desconforto de ainda não saber.

É por isso que experiências analógicas continuam sendo tão importantes.

Desenhar, escrever à mão, construir, cozinhar, brincar livremente, cuidar de uma planta, organizar os próprios objetos, conversar sem uma tela por perto, caminhar observando o ambiente ou simplesmente ficar algum tempo sem receber estímulos prontos são experiências que convocam habilidades cognitivas, motoras, emocionais e sociais de maneira diferente.

Não se trata de nostalgia. Não precisamos desejar que nossos filhos tenham a mesma infância que tivemos.

O mundo deles será diferente do nosso, e precisa ser. Eles conviverão com tecnologias que ainda estamos aprendendo a compreender. Utilizarão ferramentas que provavelmente transformarão a maneira de estudar, trabalhar, criar e se relacionar. Prepará-los para esse futuro também é nossa responsabilidade.

Mas preparar uma criança para o futuro não significa oferecer tecnologia cada vez mais cedo ou ocupar cada espaço de sua vida com recursos digitais. Significa justamente preservar aquilo que ela precisará para usar toda essa tecnologia com inteligência e humanidade. Curiosidade, pensamento crítico, criatividade, empatia, autonomia, capacidade de conversar, colaborar, esperar e resolver problemas... Nenhuma dessas competências se desenvolve apenas diante de uma tela.

As famílias deveriam começar a se avaliar mais do que quanto tempo os filhos passam conectados, e perceber quanto tempo passam verdadeiramente presentes na própria vida.

Quando foi a última vez que fizeram alguma coisa com as mãos? Que inventaram uma brincadeira? Que conversaram durante uma refeição sem nenhuma tela por perto? Que ajudaram alguém simplesmente porque perceberam que aquela pessoa precisava? Que observaram o caminho em vez de olhar para o celular durante todo o trajeto? Que ficaram alguns minutos sem fazer absolutamente nada?

Essas experiências não precisam ser grandiosas. A infância nunca precisou de acontecimentos extraordinários todos os dias. Muitas das aprendizagens mais importantes acontecem justamente no cotidiano como preparando uma receita com alguém, ajudando a arrumar a mesa, ouvindo uma história, construindo algo que não ficou perfeito, esperando a chuva passar ou conversando sobre o que aconteceu durante o dia.

Talvez, daqui a alguns anos, a tecnologia consiga fazer ainda mais coisas por nós e provavelmente fará. O equilíbrio da educação contemporânea é descobrir tudo o que as máquinas serão capazes de fazer, mas, principalmente, decidir aquilo que continuaremos fazendo nós mesmos e aquilo que continuaremos ensinando nossas crianças a experimentar.

Porque podemos criar uma geração extremamente competente para navegar pelo mundo digital, mas ela continuará precisando saber viver no mundo real. E, quanto mais tecnológica se tornar a sociedade, mais relevante se torna preservar aquilo que nenhuma tecnologia deveria substituir que é a experiência profundamente humana de tocar, sentir, esperar, criar, cuidar, conversar e estar verdadeiramente presente.

* Larissa Fonseca é Pedagoga e Neuropedagoga graduada pela USP, Pós Graduada em Psicopedagogia, Psicomotricidade e Educação Infantil. Autora do livro Dúvidas de Mãe.

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