Aprenda como a construção de vínculos com atividades não digitais pode enriquecer o desenvolvimento infantil
Larissa Fonseca* Publicado em 30/03/2026, às 06h00

O uso excessivo de telas por crianças em ambientes como restaurantes levanta preocupações sobre a formação de hábitos de entretenimento, onde a tecnologia se torna a única forma de acalmar e entreter. Essa dependência pode impactar negativamente a capacidade das crianças de lidar com o tédio e a espera.
Historicamente, as crianças se entretiam com atividades simples, como jogos e conversas, antes da popularização das telas. A falta de prática em atividades não digitais pode resultar em dificuldades em sustentar conversas e em lidar com momentos de ócio.
É essencial que os pais ofereçam uma variedade de experiências de entretenimento, como leitura e brincadeiras, para desenvolver o interesse das crianças por atividades não digitais. Essa mudança pode ser implementada a qualquer momento, promovendo um aprendizado mais equilibrado e criativo.
É uma cena cada vez mais comum ver famílias em restaurantes, mesas ocupadas, pratos sendo servidos… e crianças silenciosas, concentradas em uma tela. Muitos pais relatam que esse é o único momento em que conseguem “ter um pouco de sossego.” E, de fato, a tela cumpre esse papel com eficiência.
Mas essa realidade tem me provocado uma reflexão importante: será que estamos, sem perceber, ensinando às crianças que só é possível se acalmar, esperar ou se entreter por meio de dispositivos digitais?
Não se trata de condenar o uso de telas. Elas fazem parte do nosso tempo, têm seu valor e podem, sim, ser utilizadas de forma consciente. O ponto aqui é quando a tela se torna o principal, ou único, recurso de entretenimento, ela deixa de ser uma ferramenta e passa a ocupar um lugar formativo.
As crianças aprendem a se interessar por aquilo com que têm contato frequente. O vínculo com determinadas atividades não nasce espontaneamente, ele é construído. Se, desde cedo, o que oferecemos como resposta ao tédio, à espera ou à inquietação é a tela, é natural que ela se torne a referência principal de prazer e distração.
Vale lembrar que, por muito tempo, as telas simplesmente não existiam, e ainda assim as crianças se entretiam. Restaurantes ofereciam giz de cera, folhas para colorir, pequenos jogos. Muitas famílias levavam livros, bonequinhos, blocos de montar. Em outros casos, as próprias crianças participavam das conversas, observavam o ambiente, interagiam com o que estava ao redor.
Nada disso desapareceu porque deixou de funcionar. Desapareceu, em grande parte, porque foi sendo substituído.
Hoje, vemos com frequência crianças e adolescentes que demonstram dificuldade em esperar, em lidar com o ócio, em sustentar uma conversa ou simplesmente em “não fazer nada.” E isso não é por falta de capacidade, é por falta de prática.
Vivemos uma geração que, muitas vezes, não teve a oportunidade de aprender a se autoentreter. Porque o entretenimento está sempre pronto, rápido, altamente estimulante e disponível a um toque.
Existe uma crença silenciosa entre muitos adultos que é a de que a criança precisa estar constantemente entretida. Mas o desenvolvimento infantil não depende apenas de estímulos, ele também precisa de pausas. O tédio, a espera, o tempo livre e até o desconforto são espaços férteis para a imaginação, a criatividade e a construção de autonomia.
Aprender a brincar, a observar, a conversar, a inventar, tudo isso também se ensina.
Por isso, mais do que discutir se a tela pode ou não pode, talvez a pergunta mais potente seja: que outras maneiras de se entreter estou oferecendo ao meu filho?
Se desejamos que as crianças desenvolvam interesse por livros, jogos, conversas, brincadeiras simbólicas ou simplesmente pela convivência, é preciso que essas experiências façam parte do cotidiano desde cedo. É na repetição dessas vivências que o vínculo se constrói.
Sim, oferecer a tela pode ser uma escolha pontual, e cada família sabe de sua realidade. Mas ampliar o repertório de possibilidades é uma escolha educativa.
Porque, no fim, crianças não nascem dependentes de telas. Elas aprendem a se entreter com aquilo que lhes é apresentado, valorizado e compartilhado com elas.
E a boa notícia é que isso pode ser construído em qualquer momento.
*Larissa Fonseca é Pedagoga e NeuroPedagoga graduada pela USP, Pós Graduada em Psicopedagogia, Psicomotricidade e Educação Infantil. Autora do livro Dúvidas de Mãe.
*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres