Entenda como elogios podem moldar a percepção de crianças e adolescentes sobre si mesmos e o esforço que empenham para resolver seus desafios
Larissa Fonseca* Publicado em 31/07/2026, às 06h00

Elogios a crianças e adolescentes têm um impacto significativo na forma como eles se veem e enfrentam desafios, sendo mais eficazes quando são específicos e reconhecem o esforço em vez de apenas o resultado.
A qualidade dos elogios é crucial; elogios vazios podem gerar insegurança, enquanto reconhecimentos genuínos ajudam a desenvolver a autoestima e a resiliência, permitindo que os jovens vejam os erros como parte do aprendizado.
É importante que adultos façam elogios que reflitam observações verdadeiras e incentivem a reflexão, pois isso fortalece a motivação interna e a autoconfiança, essenciais em todas as fases da vida.
Poucas coisas são tão naturais quanto elogiar alguém de quem gostamos.
"Que desenho lindo!"
"Você é muito inteligente."
"Parabéns! Você é o melhor!"
Pais, avós, professores e familiares costumam usar essas expressões com a melhor das intenções. Afinal, quem não deseja incentivar uma criança ou um adolescente, fortalecer sua autoestima e demonstrar orgulho por suas conquistas?
Mas, o que uma criança ou um adolescente aprende quando recebe um elogio? A resposta pode parecer simples, mas vai muito além de um sorriso ou da satisfação daquele momento.
A maneira como elogiamos ajuda a construir o modo como crianças e adolescentes passam a enxergar a si mesmos, os desafios e até os próprios erros.
Durante muito tempo acreditou-se que quanto mais elogiássemos, maior seria a autoestima. Hoje, sabemos que a questão não está apenas na quantidade de elogios, mas principalmente na qualidade deles.
Elogios genuínos fortalecem. Elogios vazios, exagerados ou automáticos, muitas vezes, perdem seu significado.
Imagine duas crianças que acabaram de montar um quebra-cabeça.
A primeira ouve: "Você é um gênio!" A segunda escuta: "Percebi que você tentou várias maneiras até conseguir encaixar as últimas peças. Você persistiu mesmo quando parecia difícil."
As duas receberam um elogio. Mas receberam mensagens completamente diferentes. Na primeira situação, o foco está em uma característica fixa, como se o sucesso dependesse apenas de um talento natural. Na segunda, o reconhecimento está voltado para aquilo que realmente pode ser desenvolvido: o esforço, a persistência, a estratégia utilizada e a disposição para continuar aprendendo.
Essa diferença parece pequena. Mas pode acompanhar a criança por muitos anos.
Quando ela cresce acreditando que precisa ser sempre "a inteligente", "a talentosa" ou "a melhor", cada erro passa a representar uma ameaça. Afinal, se ela fracassou, será que deixou de ser inteligente?
Não é difícil entender por que tantas crianças e adolescentes desenvolvem medo de errar. Algumas evitam desafios para não correr o risco de falhar. Outras desistem diante das primeiras dificuldades porque acreditam que sua capacidade está sendo colocada à prova.
Em contrapartida, quando valorizamos o processo de aprendizagem, transmitimos uma mensagem muito mais poderosa: habilidades podem ser desenvolvidas.
Errar deixa de significar incapacidade. Passa a fazer parte do caminho.
Existe outro aspecto que merece reflexão. Nem todo elogio é, de fato, um reconhecimento. Às vezes, elogiamos de forma tão automática que as palavras perdem seu valor. "Está lindo!" "Perfeito!" "Maravilhoso!" Mas será que paramos para observar o que a criança realmente fez?
As crianças percebem quando um elogio é apenas um hábito ou quando ele nasce de uma observação verdadeira. Da mesma maneira, elogios exagerados ou pouco coerentes também podem gerar insegurança.
Se uma criança sabe que seu desenho ficou incompleto e ouve que ele está "perfeito", ela pode sentir que o adulto não prestou atenção de verdade ou que precisa corresponder sempre a expectativas irreais.
O elogio genuíno é diferente. Ele é específico. Ele descreve. Ele reconhece.
Em vez de dizer apenas: "Que desenho bonito!"
Podemos comentar: "Gostei de como você usou as cores para representar o céu." Ou: "Percebi que você ficou bastante tempo tentando terminar essa atividade."
Esse tipo de reconhecimento mostra que o adulto realmente enxergou o esforço investido. Mais do que isso, ensina a criança a perceber suas próprias conquistas.
Também vale lembrar que nem toda realização precisa ser acompanhada de elogios. Às vezes, uma boa pergunta produz muito mais desenvolvimento do que uma afirmação. "O que foi mais difícil nessa atividade?", "Do que você mais gostou?", "Como você conseguiu resolver esse problema?". Essas perguntas estimulam a reflexão, favorecem o autoconhecimento e ajudam a construir uma motivação que não depende exclusivamente da aprovação externa.
Essa reflexão não vale apenas para crianças! Adolescentes continuam precisando de reconhecimento, mas desejam ser vistos com autenticidade. E nós, adultos, também.
Todos gostamos de perceber que alguém reconheceu nosso esforço, nossa dedicação ou a forma como enfrentamos um desafio.
Pouco adianta ouvir um elogio genérico quando sabemos que a outra pessoa sequer percebeu o caminho que percorremos.
Reconhecimento verdadeiro fortalece em qualquer fase da vida. Na Neuropsicopedagogia, compreendemos que aprender não significa apenas acertar respostas. Aprender envolve experimentar, revisar estratégias, lidar com erros, persistir diante das dificuldades e construir novos caminhos para resolver problemas. É justamente esse processo que merece ser valorizado.
Quando elogiamos apenas o resultado, celebramos a chegada. Quando reconhecemos o esforço, a persistência e a evolução, valorizamos toda a caminhada.
A autoestima mais sólida não nasce dos aplausos constantes. Ela nasce quando crianças, adolescentes e adultos descobrem que seu valor não depende de acertar sempre, mas da confiança de que podem continuar aprendendo, mesmo quando o caminho exige novas tentativas.
* Larissa Fonseca é Pedagoga e Neuropedagoga graduada pela USP, Pós Graduada em Psicopedagogia, Psicomotricidade e Educação Infantil. Autora do livro Dúvidas de Mãe.
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