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A geração que sabe deslizar a tela, mas ainda precisa aprender a amarrar os sapatos

Explorando a relação entre tecnologia e as habilidades emocionais essenciais que a criança deve aprender para ter um crescimento saudável

Larissa Fonseca* Publicado em 27/07/2026, às 06h00

A capacidade de esperar está diretamente relacionada ao desenvolvimento do autocontrole. - Foto: Canva Pro
A capacidade de esperar está diretamente relacionada ao desenvolvimento do autocontrole. - Foto: Canva Pro

O comportamento das crianças, que dominam tecnologias mas têm dificuldade em lidar com frustrações, reflete a era da gratificação imediata, onde a espera se tornou uma exceção. Essa situação levanta preocupações sobre o desenvolvimento de habilidades emocionais essenciais, como autocontrole e tolerância à frustração.

A tendência de evitar que as crianças enfrentem a espera e a frustração pode prejudicar seu aprendizado sobre responsabilidades e a importância de contribuir para a dinâmica familiar. A falta de envolvimento nas tarefas do dia a dia impede que elas desenvolvam um senso de pertencimento e autonomia.

Para promover um desenvolvimento saudável, é crucial que as crianças participem ativamente das rotinas familiares e escolares, aprendendo a colaborar e a assumir responsabilidades. A educação deve ir além do uso da tecnologia, preparando-as para viver em sociedade e construir relações baseadas na responsabilidade compartilhada.

Resumo gerado por IA

Uma criança de três anos consegue desbloquear um celular antes mesmo de aprender a amarrar os próprios sapatos. Outra sabe escolher um vídeo em poucos segundos, mas se irrita quando precisa esperar alguns minutos pela comida. Um adolescente domina aplicativos complexos, mas demonstra enorme dificuldade para aceitar um "não". Essas cenas fazem parte do cotidiano de muitas famílias. É comum atribuir esse comportamento exclusivamente às telas. Mas o problema envolve outras questões.

Estamos vivendo a era da gratificação imediata. Hoje quase tudo acontece com um toque. Compramos sem sair de casa. Assistimos ao filme que queremos na hora em que queremos. Conversamos instantaneamente com pessoas do outro lado do mundo. As respostas chegam em segundos. A espera tornou-se exceção. E, sem perceber, essa lógica também passou a fazer parte da infância.

Quando uma criança demonstra tédio, rapidamente oferecemos um estímulo. Quando reclama da espera, tentamos distraí-la. Quando encontra dificuldade em uma atividade, muitas vezes resolvemos por ela para evitar sua frustração. 

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Tudo isso nasce de uma intenção compreensível, afinal queremos facilitar a vida dos nossos filhos. Mas existe uma habilidade que só se desenvolve quando a criança experimenta justamente aquilo que tentamos evitar. Esperar, esperar a sua vez, esperar o bolo assar, esperar o brinquedo chegar, esperar a resposta, esperar o tempo necessário para aprender algo novo. A capacidade de esperar está diretamente relacionada ao desenvolvimento do autocontrole, da autorregulação emocional e da tolerância à frustração. 

Essas competências não aparecem de forma espontânea. São aprendidas nas pequenas experiências do cotidiano. Existe outro aspecto que merece nossa atenção. Em muitos lares, as crianças acumulam direitos, mas participam cada vez menos das responsabilidades da vida em família. Recebem a refeição pronta. As roupas aparecem limpas no armário. O quarto é organizado por outra pessoa. A mochila está pronta. A mesa já foi colocada. O lixo já foi retirado. Tudo funciona. Mas elas pouco participam desse funcionamento. Não porque sejam incapazes. Mas porque, muitas vezes, os adultos acreditam que ajudar é fazer por elas.

No entanto, autonomia não nasce quando tudo está pronto. Ela nasce quando a criança e o adolescente percebem que também fazem parte da construção daquele ambiente. Guardar os brinquedos. Organizar a mochila. Levar o prato até a pia. Dobrar uma roupa. Cuidar de um animal de estimação. Preparar um lanche simples. Preparar um lanche para o outro. Receber e também promover. Essas tarefas parecem pequenas. Mas ensinam algo enorme. Elas mostram que viver em família significa receber cuidado, mas também oferecer cuidado. Que todos possuem direitos. E todos possuem responsabilidades. 

Quando uma criança e um adolescente participam da rotina da casa, eles não estão apenas aprendendo tarefas domésticas. Estão desenvolvendo senso de pertencimento, responsabilidade, autonomia, cooperação e respeito pelo trabalho do outro.

Isso vale também para a escola. Nem sempre será possível escolher a atividade preferida. Nem sempre ganhará o jogo. Nem sempre será a primeira da fila. Nem sempre conseguirá aquilo que deseja naquele momento. E tudo bem. A vida adulta será construída justamente sobre essas pequenas experiências. 

Então, devemos nos perguntar se estamos promovendo oportunidades para nossas crianças e adolescentes esperarem, colaborarem, assumirem responsabilidades e perceberem que fazem parte de algo maior do que seus próprios desejos? 

Educar nunca foi apenas preparar crianças para usar a tecnologia. É prepará-las para viver em sociedade. E isso significa aprender que algumas coisas acontecem imediatamente. Outras exigem tempo. Algumas recebemos. Outras precisamos construir. 

Autonomia não nasce quando fazemos tudo pelos nossos filhos, mas quando ensinamos e confiamos que eles já podem começar a fazer, aos poucos, por si mesmos e também pelos outros. Precisamos formar crianças que saibam utilizar a tecnologia sem perder aquilo que nenhuma tela poderá oferecer que é a capacidade de esperar, colaborar, cuidar e construir relações baseadas na responsabilidade compartilhada.

* Larissa Fonseca é Pedagoga e Neuropedagoga graduada pela USP, Pós Graduada em Psicopedagogia, Psicomotricidade e Educação Infantil. Autora do livro Dúvidas de Mãe.

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