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O verdadeiro pódio do futebol não está apenas na Copa do Mundo

Entenda a importância do investimento em projetos sociais esportivos para promover o desenvolvimento da juventude, inclsive com o futebol

Amanda Costa* Publicado em 30/06/2026, às 06h00

Explorando o papel do esporte como ferramenta de inclusão - foto: pexels
Explorando o papel do esporte como ferramenta de inclusão - foto: pexels

O futebol nas periferias brasileiras se destaca como uma ferramenta de transformação social, atuando em comunidades onde o poder público muitas vezes não chega, e promovendo inclusão e desenvolvimento humano. Essa prática vai além do esporte, contribuindo para a formação de cidadãos mais confiantes e disciplinados.

Estudos apontam que programas esportivos estruturados são eficazes na redução da criminalidade e do uso de substâncias entre jovens, demonstrando que o investimento em projetos sociais esportivos é uma estratégia vital para o desenvolvimento e proteção social. O retorno econômico desses investimentos também é significativo, com um estudo indicando que cada euro investido pode gerar cinco euros em benefícios sociais.

A necessidade de um investimento mais robusto no futebol social é urgente, com um apelo para que empresas e investidores vejam as comunidades periféricas como oportunidades para o desenvolvimento humano, e não apenas como fontes de futuros atletas. O legado desejado é um futuro onde o esporte contribua para a superação de desigualdades e a construção de uma sociedade mais justa.

Resumo gerado por IA

Em tempos de Copa do Mundo, o planeta inteiro parece falar a mesma língua. As ruas mudam de cor, as telas se multiplicam, as marcas entram em campo, os ídolos ocupam manchetes e o futebol volta a ocupar o centro da conversa pública. Mas existe um outro futebol que não termina quando o árbitro apita. Um jogo que não depende de estádio lotado, transmissão internacional ou patrocínio milionário para transformar vidas.

É o futebol que pulsa todos os dias nas periferias brasileiras, nas quadras comunitárias, nos campos improvisados, nas vielas e nos projetos sociais que chegam aonde muitas vezes o poder público não alcança. É o futebol entendido como ferramenta de transformação e plataforma concreta de impacto social.

Longe dos grandes refletores, a realidade crua das favelas e territórios vulneráveis exige debates com a mesma energia. Nossas crianças e adolescentes continuam precisando de acesso, formação, proteção e, acima de tudo, pertencimento. O UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) defende que o acesso ao esporte seguro e inclusivo é um direito fundamental, funcionando como uma estratégia vital de desenvolvimento e proteção social para os jovens em maior situação de vulnerabilidade.

Se é um direito, nosso papel como sociedade é garantir que ele seja entregue com excelência.

Quando desenhamos o esporte com intencionalidade e metodologia, ele deixa de ser apenas um jogo. Torna-se uma ferramenta de educação, saúde, convivência comunitária e desenvolvimento humano. É nesse ponto que convido a sociedade e o setor privado a saírem da narrativa de meros espectadores para entrar na agenda da corresponsabilidade. Torcer emociona, mas investir na base transforma.

Durante muito tempo, os projetos esportivos periféricos foram vistos de forma reducionista, quase como um mero "passatempo" para ocupar o tempo livre dos jovens. Essa visão é um erro estratégico diante da potência do esporte quando aliado a uma metodologia rigorosa, educadores preparados e acompanhamento pedagógico.

O esporte de impacto atua diretamente nos fatores de proteção social. Ele cria rotina, estabelece limites, oferece afeto e gera vínculos com adultos de referência, reduzindo drasticamente a exposição a contextos de violência.

De acordo com o UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), programas esportivos estruturados são ferramentas eficazes na redução da criminalidade e do uso de substâncias entre jovens de 13 a 18 anos. Portanto, o que fazemos na periferia não é recreação; é tecnologia social de prevenção.

Relatórios internacionais de investimento social no esporte apontam que esse impacto também pode ser mensurado economicamente. Um estudo da Laureus sobre esporte e redução da criminalidade indica retorno médio de 5 Euros para cada 1 Euro investido em programas esportivos voltados à prevenção da criminalidade, considerando benefícios sociais e redução de custos associados.

Nas periferias brasileiras, o campo de futebol muitas vezes chega antes do laboratório, da biblioteca e do próprio Estado. Investir em projetos sociais esportivos não é financiar lazer; é financiar capital humano.

O futebol que nasce na favela constrói a identidade deste país. Ele reúne, organiza, mobiliza e revela lideranças. No entanto, essa potência transformadora não pode depender exclusivamente do voluntariado heroico ou de ONGs que sobrevivem sufocadas pela falta de recursos. O investimento no futebol social precisa se tornar uma agenda nacional de impacto.

Empresas, fundações e investidores sociais precisam olhar para a base da periferia não apenas como um celeiro para descobrir o "próximo Neymar," mas como um solo fértil para o desenvolvimento humano. A imensa maioria das crianças atendidas pelos nossos projetos não se tornará atleta profissional. Mas o nosso sucesso reside no fato de que todas elas podem se tornar cidadãos confiantes, disciplinados, saudáveis e conscientes de seu próprio valor.

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O projeto esportivo social não existe para prometer fama. Existe para ampliar o futuro. Neste momento em que o mundo celebra o espetáculo dos gramados, proponho uma reflexão sobre qual é o legado que queremos deixar quando a festa acabar?

O jogo não termina quando o juiz apita. Nos territórios onde a desigualdade tenta limitar destinos, nós continuamos em campo jogando todos os dias: contra a evasão escolar, violência, falta de perspectiva e apagamento das nossas meninas. Longe dos holofotes e das câmeras, é ali que construímos o pódio da vida real. Um pódio onde a medalha é voltar a sonhar, a vitória é permanecer, e o troféu é pertencer. O futebol na periferia veste chuteira, mas entrega muito mais do que jogo. Entrega futuro.

*Amanda Costa é educadora física e fundadora do Instituto Sempre Movimento.

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*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres