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Feliz dia para aquelas que sabem que o diagóstico de autismo não é uma “regalia”: as mães!

Um olhar crítico sobre a percepção do autismo na sociedade e as dificuldades enfrentadas por autistas e suas mães

Luciano de Jesus Gonçalves* Publicado em 10/05/2026, às 06h00

Na base de todo o suporte da pessoa autista há, prioritariamente, uma mãe. - Foto: Canva Pro
Na base de todo o suporte da pessoa autista há, prioritariamente, uma mãe. - Foto: Canva Pro

A discussão sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) foi acentuada em um programa de televisão, onde o médico José Salomão Schwartzman fez comentários que geraram desconforto, especialmente em relação ao diagnóstico como uma 'regalia'. Isso trouxe à tona a necessidade de um debate mais profundo sobre a neurodiversidade e suas implicações sociais.

Dados do Portal da Transparência do Registro Civil indicam que entre 2024 e 2025, cerca de 20 mil crianças terão apenas o registro da mãe, refletindo um aumento no número de famílias monoparentais e a luta das mães solo, que muitas vezes enfrentam desafios adicionais na criação de filhos com necessidades especiais.

O autor, Luciano de Jesus, destaca a importância de reconhecer a singularidade das mães atípicas e a luta histórica por direitos das pessoas autistas, enfatizando que o suporte à população autista é frequentemente sustentado por essas mães. Ele conclui com uma homenagem às mães, especialmente à sua, ressaltando a necessidade de um olhar mais atento e respeitoso sobre as questões que envolvem o autismo.

Resumo gerado por IA

No último vinte de abril, quando a vinheta de encerramento do Roda Viva começou a tocar, as expressões “marcador biológico”, “protocolos frouxos”, “esquisito” e “regalias”, a mais contundente, me deixaram sem chão. A alegria de encontrar o excelente Ernesto Paglia apresentando o programa durou pouco.

Na edição em que o convidado era o médico neuropediatra José Salomão Schwartzman, eu também senti falta das contraposições. Graças à Professora Doutora Maria Cristina Kupfer, da Universidade de São Paulo (USP), parte dessas contraposições vieram com muita elegância e didatismo uma semana depois.

Hoje, no domingo em que comemoramos o Dia das Mães, concluo ainda uma vez mais que o meu diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA), nível 1 de suporte, não é uma “regalia”. Depois de assistir ao médico, repeti essa frase feito boi que masca um capim ofensivo.

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Mascar, mastigar, refletir, remoer, repisar e ruminar são sinônimos para esse prejuízo que, em mim, dói, dói muito. O prejuízo se chama ruminação e a transição da angústia para algo mais físico é, quase sempre, imediata. O coração acelera, o peito aperta, a cabeça lateja, todo o corpo treme.

Em mim, a parte grave da ruminação é que ela piora. Feito ferida que infecciona, um detalhe me acompanha por dias, semanas, meses, anos, décadas.

“Esquisitão”, no convívio familiar, cresci com uma dificuldade específica. Eu não conseguia pronunciar a palavra mãe. Ou seja, fui acompanhando pelo peso de ser a criança que não consegue chamar de mãe a mãe. Esse dado me diferenciava de toda a família. Nesse ponto, preciso me apresentar.

Eu assino Jesus. No meu nome de batismo, sou propriedade cristã. Eu sou Luciano de Jesus.

O aspecto religioso da identidade, eu herdei de minha avó, dona Alcina Rosa de Jesus. Uma justificativa toponímica, área que estuda os sentidos dos nomes de lugares e de pessoas, começaria pelo abandono paterno, familiar, para justificar a minha falta de origem mais pomposa em termos materiais.

Apesar da carga de bençãos anunciada na assinatura, eu não possuo origem ligada a qualquer tipo de realeza! Infelizmente, o abandono da infância é um câncer que persiste. Cada vez mais, os números de filhos sem pai, como eu, só aumentam.

Entre 2024 e 2025, ao menos 20 mil crianças tiveram apenas o registro da mãe nas certidões de nascimento, segundo dados do Portal da Transparência do Registro Civil. Faço parte desse grupo de “sortudos” ignorado pelo machismo. Assim, não me constitui enquanto adulto tendo como base vantagens indevidas. Todas as posições públicas que ocupei e ocupo foram conquistadas depois de muito estudo e trabalho. Decididamente, eu não sou um herdeiro.

Nessa breve trajetória de laudado como autista nível 1 de suporte, aprendi a olhar a minha mãe, Maria Zélia de Jesus, e as mulheres mães, de modo diferente. Na base de todos os direitos que a população autista possui, está a luta histórica de mulheres que, nem sempre, escolheram para si a condição de mães solo.

É preciso pontuar e defender a singularidade de uma mãe atípica. E mais, é preciso pontuar que o debate das neurodivergências deve incluir temas que não parecem relacionados, de início.

Na mesma edição, o médico mencionou a palavra prosopagnosia, distúrbio que dificulta o reconhecimento de rostos. Amei conhecer um termo novo, mas foi só.

Em 2026, alguns debocham dizendo que o autismo virou o melhor negócio do mundo. Adulto autista, autista adulto, eu posso garantir a vocês, leitoras e leitores, não há vantagens apriorísticas em um transtorno que carrega consigo diversos prejuízos. No meio da polêmica, outro dado é certo: na base de todo o suporte da pessoa autista há, prioritariamente, uma mãe. Por isso, peço licença a vocês! Essa regalia, a da pena, eu tenho. Aqui, o teclado é meu:

Feliz Dia das Mães para todas as mães! Em especial, feliz Dia das Mães para a minha mãe, dona Maria Zélia!

* Luciano de Jesus Gonçalves é doutor em literatura pela USP, professor do Instituto Federal do Tocantins e autor do livro Crônicas espectrais, notas sobre o TEA (Transtorno do Espectro Autista), editora Patuá.

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