A transparência sobre o que a IA pode e não pode fazer é essencial para pacientes em tratamento de fertilidade. Saiba mais.
Dr. Alfonso Massaguer* Publicado em 16/07/2026, às 06h00

A inteligência artificial está se consolidando na medicina reprodutiva, especialmente na análise e seleção de embriões, oferecendo suporte em decisões críticas durante o tratamento de fertilização in vitro.
Apesar de sua capacidade analítica, a IA não melhora a qualidade dos óvulos e embriões, que continua sendo a principal limitação para muitos pacientes, o que é crucial para que os casais façam escolhas informadas sobre seus tratamentos.
É essencial que os médicos forneçam informações claras sobre os benefícios reais da IA, garantindo que os pacientes compreendam seu papel no tratamento, enquanto a tecnologia avança e promete inovações futuras na área.
A inteligência artificial chegou à medicina reprodutiva, e veio para ficar. Nos congressos internacionais que acompanho, nas publicações científicas e no marketing das clínicas, a IA é apresentada como a nova fronteira da fertilidade. Parte desse entusiasmo é legítimo.
Mas quem está em tratamento, ou prestes a começar um, merece uma conversa mais honesta do que a que costuma chegar ao público: o que essa tecnologia realmente entrega hoje? E o que ela ainda não pode fazer?
Depois de mais de 25 anos na reprodução humana assistida, aprendi que usar uma tecnologia com inteligência significa, antes de tudo, entender seus limites com a mesma clareza com que se celebram suas possibilidades.
Na minha clínica, a inteligência artificial já faz parte das ferramentas disponíveis para as pacientes. Sua aplicação mais consolidada está na análise e seleção de embriões: algoritmos processam dados morfológicos e de desenvolvimento embrionário para identificar qual embrião apresenta maior potencial de implantação.
Esse é um auxílio real em uma das decisões mais delicadas de todo o processo de fertilização in vitro. Em algumas situações, a IA nos ajuda a encurtar o caminho para identificar o melhor embrião para transferência, e isso tem valor concreto dentro do tratamento. Acredito no potencial dessa tecnologia e acompanho de perto sua evolução no cenário global da medicina reprodutiva.
Com toda a sua capacidade analítica, porém, a inteligência artificial ainda não alterou a variável mais determinante da reprodução humana: a qualidade dos óvulos e dos embriões.
Esse ponto merece ser dito sem rodeios. A IA nos ajuda a selecionar o melhor embrião disponível, mas ela não melhora a qualidade desses embriões. Ela não cria matéria-prima. E na reprodução humana, a qualidade da matéria-prima, os óvulos, continua sendo a principal limitação para muitas pacientes. Nenhum algoritmo, por mais sofisticado, transforma um conjunto de embriões de baixo potencial em embriões viáveis. Ele apenas ordena o que existe.
Entender essa distinção é o que permite a mulheres e casais fazerem escolhas conscientes sobre o próprio tratamento, e é por isso que insisto nela.
Falar dos limites da IA não é uma crítica à tecnologia. É uma responsabilidade ética com as pacientes. Mulheres e casais em tratamento de fertilidade atravessam um momento de grande vulnerabilidade emocional e financeira, e merecem informação precisa sobre o que cada recurso pode oferecer de fato.
Isso vale especialmente quando a inteligência artificial representa um custo adicional no tratamento. Nesses casos, a paciente precisa saber exatamente qual benefício está adquirindo e em que contexto clínico esse benefício se aplica ao seu caso específico. Há situações em que a seleção embrionária assistida por IA agrega valor real; há outras em que o fator limitante do casal está em uma etapa que a tecnologia não alcança. A missão de qualquer médico deve ser colocar a informação correta acima de qualquer outra consideração, inclusive a comercial.
Meu posicionamento está longe de ser pessimista. A inteligência artificial tem potencial transformador na medicina reprodutiva, e é provável que nos próximos anos vejamos aplicações que hoje parecem distantes. O que defendo é que o entusiasmo legítimo com o futuro não obscureça a clareza sobre o que está disponível agora.
Na prática clínica, a IA funciona melhor quando integra um protocolo marcado pela individualização e pela humanização do atendimento. Tecnologia não substitui a escuta, o exame criterioso de cada história e a construção de um plano terapêutico sob medida. Ela potencializa o trabalho médico, não o dispensa.
Para quem está iniciando um tratamento e se depara com a promessa da inteligência artificial, minha orientação é simples: pergunte ao seu médico o que a ferramenta faz no seu caso, qual evidência sustenta esse uso e qual alternativa existe. Uma equipe comprometida com a paciente responderá a essas perguntas com naturalidade. A inovação e a responsabilidade médica não são opostas, e é no equilíbrio entre as duas que a reprodução assistida avança de verdade.
* Dr. Alfonso Massaguer é fundador e diretor da Clínica Mãe. Formado pela Faculdade de Medicina da USP, com especialização pelo Hospital das Clínicas, é membro das sociedades americana e europeia de reprodução humana e atua há mais de 25 anos no tratamento da infertilidade.
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