Escutar uma criança de verdade vai além de ouvir palavras; é reconhecer suas emoções e dar espaço para que se expressem livremente
Adelir Marinho* Publicado em 18/08/2026, às 06h00

A escuta ativa se tornou um tema central na educação contemporânea, destacando a importância de os adultos realmente ouvirem as crianças, em vez de apenas cumprir uma rotina de perguntas automáticas.
A responsabilidade de escutar não deve ser vista apenas como uma função da escola, que já assume papéis amplos, mas também como um dever familiar que começa desde os primeiros momentos de vida da criança.
Escutar uma criança requer tempo e atenção, e é fundamental que os adultos interrompam suas rotinas para reconhecer a importância das expressões infantis, fortalecendo assim a confiança e a comunicação entre eles.
Quantas vezes perguntamos ao nossos filhos como foi seu dia e respondemos "Que bom!" antes mesmo que ele termine a primeira frase?
Quantas vezes fazemos perguntas apenas para cumprir uma rotina: "Como foi a escola?", "Você comeu?", "Fez a lição?", enquanto nossa atenção continua dividida entre o celular, o computador e as inúmeras tarefas do cotidiano?
Será que ouvir é o mesmo que escutar?
Possivelmente o maior desafio da educação contemporânea não seja apenas ensinar as crianças a se expressarem. Seja aprender, como adultos, a realmente escutá-las.
Nos últimos anos, a expressão escuta ativa tornou-se frequente nas discussões sobre educação e isso nos leva a uma pergunta igualmente importante: por que tantas vezes acreditamos que essa responsabilidade pertence apenas à escola?
Talvez essa percepção tenha se fortalecido porque, nas últimas décadas, a escola passou a assumir funções cada vez mais amplas. Muitas escolas investem na formação de professores para que aprendam a ouvir os alunos com mais sensibilidade. Além de ensinar, espera-se que acolha conflitos, desenvolva competências socioemocionais, fortaleça vínculos e promova espaços de escuta.
Tudo isso é importante e necessário. O equívoco está em imaginar que essa responsabilidade começa e termina na escola.
A escola amplia vivências.
A família inaugura experiências.
A escuta começa no colo, quando um bebê balbucia e encontra um adulto que responde ao seu olhar. Continua quando uma criança pequena aponta para uma borboleta e alguém interrompe a caminhada para compartilhar aquele instante. Fortalece-se quando um medo, uma alegria ou uma descoberta são acolhidos sem pressa.
Toda criança encontra maneiras de se expressar. E, é nesse processo que ela aprende outra coisa, se suas expressões, seus gestos, seus balbucios e suas emoções encontram acolhimento no outro, se existe alguém disposto a interromper o próprio tempo para ouvir aquilo que ela comunica.
É dessa experiência repetida, cotidiana e silenciosa que nasce um dos vínculos mais importantes da infância. Nessa relação que ela começa a construir a confiança necessária para comunicar-se com o mundo.
No entanto, aos poucos, deixamos de perceber que escutar uma criança exige tempo e disponibilidade. O cotidiano transforma perguntas em protocolos e respostas em automatismos, nunca tivemos tantas formas de nos comunicar e, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil oferecer presença. Porque nunca estivemos tão conectados e tão distraídos das conversas mais importantes.
As notificações interrompem histórias. A pressa encurta diálogos.
Escutar uma criança não significa concordar com tudo o que ela diz nem atender a todos os seus desejos. Também não significa ter respostas prontas para cada dúvida ou resolver imediatamente cada conflito. Escutar é reconhecer que aquilo que ela sente merece ser considerado. É olhar nos olhos, interromper o automatismo da rotina e demonstrar, por meio da presença, que sua voz tem importância.
Talvez a escuta mais importante não aconteça durante uma reunião escolar ou em uma conversa marcada para resolver um problema. Ela pode acontecer quando uma criança interrompe nossa rotina para mostrar um desenho, contar um sonho ou explicar, pela quinta vez, como foi uma brincadeira.
Nesses momentos, o que ela procura não é uma solução. Procura alguém que a considere importante o suficiente para interromper o próprio tempo e simplesmente ouvir.
Talvez a pergunta mais importante não seja se nossos filhos falam conosco.
Talvez seja outra.
Quando eles falam, nós realmente estamos presentes?
Afinal, toda criança encontra maneiras de se comunicar. Mas é sendo verdadeiramente escutada, nas suas diferentes formas de expressão que ela aprende que sua presença, seus sentimento e sua voz tem valor.
* Adelir Marinho é professora Doutora e pós-doutora pela UNICAMP; especialista em Neurociência, educação e desenvolvimento infantil, escritora de diversos livros na área de Educação, pesquisadora da infância, da formação dos adultos que educam e da qualidade das experiências vividas pelas crianças nos primeiros anos de vida.
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