Entenda como a revolução digital redefine a educação e as metodologias de ensino, integrando tecnologia e aprendizado.
Emanoel Ceress* Publicado em 17/12/2025, às 06h00

A revolução digital, impulsionada pela inteligência artificial, transformou a educação, exigindo uma atualização não apenas dos conteúdos, mas também das metodologias para preparar os estudantes para um mundo onde o digital é onipresente.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reconhece a importância da cultura digital, mas as abordagens atuais podem não abordar adequadamente as questões éticas e cognitivas que surgem com a rápida evolução da tecnologia.
É necessário redefinir as finalidades educacionais e as práticas pedagógicas para garantir que a tecnologia amplie, em vez de comprometer, a capacidade crítica e a resolução de problemas dos alunos, preparando-os para a quinta revolução cognitiva.
1. Introdução
A fase inicial da revolução digital acarretou um conjunto de inovações que alteraram profundamente muitos aspectos das sociedades. O avanço inerente à tecnologia e principalmente à inteligência artificial resultou numa imersão tão grande e abrangente que o digital passou a ser uma condição cotidiana e não mais uma ferramenta opcional ou complementar que podia ser dispensada ou substituída. As transformações sociais e culturais que ocorreram em decorrência disso sedimentaram-se de tal maneira que o salto qualitativo resultado tornou o digital imanente. O pós-digital é essa esfera de integração e imanência, uma perda de fronteira entre o mundo material e o virtual que operam mutuamente sobre nossas ações e modos de pensamento sem que possamos distinguir um do outro.
Mas como isso tem impactado na educação? Um amparo curricular que comporte o futuro da educação nesse contexto deve ser pensado não somente com a necessidade de atualizar conteúdos, mas também de redefinir metodologias e finalidades que propiciem competências para essa outra realidade. O perigo do uso das IAs para resolver problemas sem que haja engajamento crítico e compreensão real por parte dos estudantes, por exemplo, é uma preocupação constante.
Diante disso, nos deparamos com uma questão-problema: como proporcionar que a tecnologia e a IA, ao invés de atrofiar a capacidade de resolução de problemas, possa, de fato, ampliá-la? Nosso trabalho irá refletir sobre o sentido da denominada era pós-digital bem como sobre as disponibilidades de currículos e metodologias a partir disso. A Inteligência Artificial trouxe mudanças na perspectiva de resolução de problemas e isso tem causado consequências.
Nesse sentido, nosso objetivo se expressa na análise da disposição da tecnologia nos currículos hoje e nas mudanças que têm ocorrido nas relações do conhecimento e entre os atores escolares. Analisaremos os proveitos que podemos tirar das IAs, sem que substituam o esforço cognitivo e o protagonismo dos estudantes.
2. A Era Pós-digital
Florian Cramer (2014) afirma que desde 2007 analisou a expressão “pós-digital” como problemática quando foi introduzida por um aluno. Contudo, num determinado contexto a compreendeu na situação de um jovem ter virado meme por motivo de usar uma máquina de escrever descansadamente em uma praça. Considerado naquele momento como um “fenômeno hipster”, em oposição à vivência da atualização tecnológica que havia se tornado a regra, o termo designou uma nova perspectiva. Embora com várias restrições e entendendo limitações, o pensador aborda o pós-digital como “mais que uma descrição descuidada contra uma tendência cultural contemporânea (e possivelmente nostálgica)”. O estranhamento social à atitude do jovem expressava ali um “passado histórico”, um desencantamento rápido demais como se tratasse de uma algo “vintage”. Dessa forma expressou: “Mais pragmaticamente, o termo 'pós-digital' pode ser usado para descrever tanto um desencanto contemporâneo com sistemas de informação digital e gadgets de mídia, quanto um período em que nosso fascínio por esses sistemas e gadgets se tornou histórico. [Tradução nossa] (p. 12)”. O autor afirma ainda que o sentido de “pós” não pode ser entendido como um simples “depois”, mas como uma forma contínua em sua mutação nada estática; bem como o termo “digital” não se limita ao técnico-científico ou midiático, mas descreve a condição de um modo de ser que vai além de uma mera utilização instrumental de recursos.
Essa é a linha que Rui Fava (2025) descreve a Inteligência artificial como a espinha dorsal da quarta revolução cognitiva, diante da capacidade dessa ferramenta em ampliar a cognição humana ao ser capaz de realizar tarefas que exigem raciocínio, análise e resolução de problemas em velocidades inalcançáveis pelo raciocínio humano. A tese de uma quinta revolução cognitiva já encontra-se em processo com a IA generativa, na medida de uma contínua superação das estruturas materiais e da consequente adaptação imediata e imperceptível dos indivíduos. A ideia de ecossistema para conceituar a integração da tecnologia à cultura e aos valores das instituições demonstra uma atmosfera que atua sobre os indivíduos quase que como uma necessidade de respirar. “A tecnologia digital cognitiva, o aperfeiçoamento da inteligência artificial, o advento da IA generativa estão transformando todos os setores da sociedade. Adentramos em uma nova plataforma que, certamente, está provocando a quinta revolução cognitiva. (p. 39).
O mesmo contexto tecnológico conduz as análises de pensadores como Luciano Floridi e Max Tegmark, que se debruçam sobre o impacto da inteligência artificial na cognição humana, corroborando a tese de que já se passou a fase em que havia uma mistura de fascínio, insegurança e otimismo em decorrência das ferramentas digitais. Quando surgem transmutações simultâneas em múltiplos fatores, afirma Fava, “desfrutamos de um divisor de águas entre o antes e o depois” (p. 38).
É verdade que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) aborda a importância da cultura digital para a formação dos indivíduos. Competências como a 1, a 2 e principalmente a 5 buscam a valorização da aprendizagem e da construção de saberes levando em conta a atmosfera tecnológica em que estamos inseridos. A base da cidadania digital, do consequente letramento digital e da resolução de problemas são avanços importantes, mas abordagens genéricas tendem a não perceber questões éticas, cognitivas e até existenciais que sofrem impactos nesse contexto. Diante da complexidade e da velocidade das transformações devido à IA, os movimentos de mudança curricular não amparam uma cultura de adaptação pedagógica enquanto adaptação à própria condição de vida dos indivíduos.
Reconhecer saberes e competências como expresso na Competência 1, que prescreve “Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva” (Ministério da Educação, 2018, p. 09) não abrange de modo integral a necessidade de desenvolver capacidade crítica quando o entendimento da cultura digital não supera o âmbito instrumental. Quando afirmamos, por exemplo, sobre a necessidade de desenvolvermos as habilidades de ser resiliente, flexível e adaptável, não as contextualizamos com estratégias claras que preencham as demandas da vida prática do que realmente se necessita. Resiliência para quê, flexibilidade em que direção e protagonismo em qual aspecto constitutivo? As dinâmicas curriculares conseguem abranger essa dimensão? Ainda: como possibilitar que a IA, braço da tecnologia, ao invés de comprometer o pensamento crítico e a capacidade de resolução de problemas, possa, de fato, ampliá-los? A necessidade de redefinição das finalidades da educação, das metodologias de ensino e dos processos formativos que resultam em ações pedagógicas devem ser permanentemente revisitadas. Santos, L. A. et. Al..(2024) afirma: “é o currículo que irá determinar como esses objetivos serão alcançados, traçando as estratégias pedagógicas mais adequadas”. (p. 133). O fato é que a relação entre os atores escolares inscreve várias estratégias na formação dos indivíduos para além do que está estritamente prescrito nos currículos. Contudo, essa forma de adaptabilidade, ao preencher lacunas entre a prática emergente e as orientações curriculares, mostram a necessidade de diretrizes educacionais que ampararem de forma efetiva as demandas da formação humana na eminência de uma quinta revolução cognitiva.
3. Considerações Finais
A Era pós-digital é expressão da constituição de uma nova ontologia, de um novo modo de ser e consequente de pensar que formou um paradigma. Um paradigma de dependência, de ação, de interconectividade e de uma constante redefinição ou atualização da realidade. A partir disso, quando se trata de educação e formação, a vivência da atmosfera dicotômica entre a ampliação e a atrofia cognitiva surge como um desafio pedagógico imanente, que exige dos currículos práticas construídas levando em consideração o poder da tecnologia. A Inteligência Artificial opera a partir de prompts para a resolução de problemas e isso dispensa, por exemplo, todo o processo do exercício de raciocínio humano dos indivíduos na forma de construir habilidades cognitivas que exigem o uso e a prática do raciocínio. Formular ideias originais, relacionar, analisar, sintetizar, criticar de maneira contundente, saber pesquisar e selecionar são habilidades que requerem prática e enfrentamento de desafios intelectuais e exigem esforço para a maturação da autonomia de pensamento e a construção de conhecimentos significativos. O desenvolvimento cognitivo precisa de uma combinação de fatores e abordagens que estão ausentes quando há um consumo meramente passivo das informações que a tecnologia pode proporcionar. Como as práticas pedagógicas têm se disposto para atuar sobre esse problema é uma questão tanto de redefinição curricular quanto de inovação metodológica.
4. Referências Bibliográficas
Cramer, F. (2014). What is 'post-digital’. APRJA, 3(1), 10-24.
Fava, R. (2025).
IA Generativa na Aprendizagem: a quinta revolução cognitiva e seu impacto na educação. Vozes Ministério da Educação. (2018). Base Nacional Comum Curricular. MEC. http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf Santos, L. A., Lopes, S. M. R., Santos, S. M. A. V., Veras, S. M., & Pinheiro, V. R. B. (2024).
Currículo, metodologias ativas e tecnologias na prática docente: A importância do currículo para alinhar o uso das tecnologias por meio das metodologias ativas à prática docente. Revista Ilustração, 5(1), 129–137.
*Emanoel Ceress é Emanoel Rodrigues da Silva, intérprete de língua inglesa, professor de inglês no Gran Cursos Online, especialista em Linguística Aplicada e em Psicopedagogia. Professor de inglês e também tem um canal no youtube.
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