Explorar o samba nas escolas abre espaço para discussões sobre cultura, racismo e memória
Dedé Ladeira* Publicado em 25/02/2026, às 06h00

O samba, como expressão cultural e histórica do Brasil, deve ser integrado aos currículos da Educação Básica, promovendo discussões sobre identidade, memória e cidadania.
Esse gênero musical reflete trajetórias sociais e culturais, permitindo abordagens interdisciplinares que conectam história, geografia e sociologia, além de enriquecer a aprendizagem dos alunos.
Iniciativas para incorporar o samba nas práticas pedagógicas visam educar para a cidadania e garantir a continuidade dessa rica tradição cultural nas salas de aula.
Como cantaram os Los Hermanos, todo Carnaval tem seu fim. No entanto, o samba continua vivo nos 365 dias do ano nos ensaios das escolas, nos bares, nas ruas, nas rodas de samba e – por que não – em sala de aula? Seja sob uma perspectiva histórica, como expressão de resistência cultural e de subjetivação da população afro-brasileira, seja a partir da riqueza de suas variações – samba-canção, samba-enredo, gafieira, samba-rock e breque –, o fato é que esse gênero musical pode e deve integrar os currículos da Educação Básica.
Mais do que um estilo musical, o samba é um documento vivo da formação social brasileira. Ele revela trajetórias de migração, processos de urbanização, disputas por espaço, desigualdades e também estratégias de sobrevivência, alegria e criação coletiva. Trabalhar o samba na escola é abrir caminhos para discussões sobre identidade, memória, racismo, cultura popular e cidadania.
Além disso, a linguagem do samba dialoga com diferentes áreas do conhecimento. Suas letras permitem atividades de interpretação textual, análise poética e produção escrita. Seu contexto histórico favorece abordagens interdisciplinares com História, Geografia e Sociologia. Já o ritmo e a performance ampliam o contato dos estudantes com expressões corporais e artísticas, tornando a aprendizagem mais significativa e conectada à realidade brasileira.
Em minhas palestras e formações para educadores, costumo apresentar nomes que ajudam a contar essa história e que merecem espaço nos livros e nos debates em sala de aula.
Leci Brandão é uma das vozes mais atuantes do samba e da vida pública. Além da trajetória artística, exerceu mandato como deputada estadual em São Paulo, com atuação em cultura, direitos humanos e igualdade racial. No ano passado, ela se apresentou no Sesc 14 Bis, gratuitamente, dentro da programação da Virada Cultural. Muitas dessas lendas seguem em plena atividade, apresentando-se em espaços acessíveis e mantendo viva a tradição.
Elza Soares, embora tenha transitado por diversos gêneros, manteve profunda ligação com o samba e fez de sua obra um instrumento de denúncia contra o racismo, o machismo e as desigualdades sociais. Sua trajetória segue inspirando novas gerações.
Já foi homenageada pelo bloco de Carnaval paulistano Acadêmicos do Baixo Augusta e deixou saudades após seu falecimento em 2022. O galpão Elza Soares no bairro da Barra Funda na capital paulista é uma bela homenagem a ela e recebe diversos eventos, como feiras e shows.
Teresa Cristina se destaca pela preservação do repertório clássico do samba e, mais recentemente, por sua atuação pública em defesa da democracia, da cultura e do diálogo social, ampliando o alcance do gênero para novos públicos.
Martinho da Vila é reconhecido por composições que abordam temas sociais, identidade e pertencimento. Também atua na valorização da cultura popular, na literatura e em projetos de difusão do samba como patrimônio cultural brasileiro.
Adoniran Barbosa foi compositor, cantor, humorista e ator. Tornou-se um dos maiores cronistas musicais da vida paulistana, retratando com sensibilidade e humor o cotidiano das camadas populares. Não por acaso, ganhou o apelido de “Noel Rosa paulista”. Para uma aula mais concreta, vale percorrer o Bixiga, bairro onde sua memória e a tradição do samba permanecem vivas. Há, inclusive, uma rua com seu nome, que faz esquina com a Avenida Brigadeiro Luís Antônio.
A Constituição Federal de 1988 estabelece que toda forma de discriminação deve ser combatida. A escola tem papel central nesse compromisso. Ao valorizar expressões culturais que refletem a diversidade do povo brasileiro, o ensino contribui para o reconhecimento de diferentes histórias e identidades.
Incorporar o samba às práticas pedagógicas é, portanto, uma forma sensível, acessível e potente de educar para a cidadania e de garantir que ele continue vivo também nos livros e nas salas de aula.
* Dedé Ladeira é professora e cofundadora da consultoria Inaperê, uma consultoria especializada em DE&I que desenvolve ações de letramento racial e histórico em escolas, empresas e instituições públicas.
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