As maratonas antirracistas oferecem suporte e metodologias práticas para educadores lidarem com a temática racial
Leo Bento* Publicado em 19/05/2026, às 06h00

As maratonas antirracistas, promovidas por uma consultoria educacional, visam abordar o letramento racial entre educadores e gestores, criando um espaço seguro para discussões e aprendizado sobre a temática. Essas iniciativas têm gerado um ambiente propício para que dúvidas sejam esclarecidas e conceitos sejam discutidos sem medo de julgamento.
Observou-se que tanto educadores quanto crianças frequentemente reproduzem ideias raciais sem compreender seu impacto, refletindo resquícios de um passado escravocrata. A escola, portanto, desempenha um papel crucial na transformação dessa repetição em reflexão crítica, utilizando metodologias inclusivas e propositivas.
As maratonas servem como um catalisador para organizar conteúdos e metodologias, ajudando educadores a integrar a temática racial em suas práticas diárias. Para que o impacto dessas ações seja duradouro, é essencial que elas sejam parte de um processo contínuo de aprendizado e diálogo nas escolas.
Desde que fundamos a consultoria, fazemos diversas ações em nossas escolas parceiras, sejam presenciais ou na plataforma online, para além dessas ações, criamos uma ação que chamamos carinhosamente de maratonas antirracistas. Essas iniciativas são voltadas para educadores e gestores que ainda não nos conhecem, pois é, muitas das vezes, um contato inicial que muitos têm com a temática de forma aprofundada. E ao longo desse tempo em que estamos atuando, pode-se dizer que colecionamos algumas experiências bem particulares - muitas bem gratificantes, outras ainda desafiadoras.
Um dos primeiros pontos que chama a atenção é o silêncio - ou melhor, a timidez. Muitos educadores e estudantes têm dúvidas sobre letramento racial, mas não se sentem à vontade para perguntar. Falta vocabulário, segurança e, por vezes, espaço. A maratona, ao criar um ambiente intencional de escuta, abre brechas importantes: permite que perguntas surjam, que conceitos sejam nomeados e que equívocos sejam trabalhados sem julgamento.
Costumamos até fazer uma introdução mais descontraída, ao dizer: tudo o que você queria saber sobre letramento racial, mas tinha medo de perguntar. E é nítida a reação: todos costumam dar uma risada aliviada. Ou seja, estamos em um ambiente seguro para aprender.
Entre as crianças, algo igualmente relevante costuma aparecer. É comum que reproduzam falas e pensamentos que circulam em seus contextos familiares e sociais, alguns ainda marcados por resquícios de um Brasil escravocrata. Elas não necessariamente compreendem o peso dessas ideias: apenas as repetem. É justamente aí que a escola cumpre um papel decisivo. Com uma pedagogia inclusiva, propositiva e crítica, é possível transformar repetição em reflexão, e reprodução em aprendizado.
Outro aspecto fundamental envolve os profissionais da educação. Gestores e professores, em sua maioria, demonstram disposição genuína para trabalhar a temática racial. No entanto, enfrentam um cotidiano intenso, com múltiplas demandas. Muitas vezes, o desafio não é a falta de vontade, mas de tempo e de instrumentos práticos. A maratona, nesse sentido, funciona como um catalisador: organiza conteúdos, oferece metodologias e mostra caminhos possíveis para a aplicação no dia a dia.
Sabe aquela aula de idioma, quando os alunos ficam entediados com o conteúdo na lousa? Basta o professor pegar um jogo de cartas ou de tabuleiro que o engajamento muda – e o aprendizado acontece. É mais ou menos assim que podemos propor ações de letramento racial: trazendo as pessoas para a “partida”.
Mas talvez a principal lição seja esta: ações pontuais só geram impacto duradouro quando conectadas a um processo contínuo. A chamada “agenda negra” na educação não se sustenta apenas em grandes eventos, mas no trabalho cotidiano, quase invisível, de trazer o tema à mesa - nas aulas, nas reuniões pedagógicas, nos corredores da escola. É um trabalho de formiga, que exige consistência e intencionalidade.
Transformar uma maratona em legado passa por alguns movimentos simples, mas estratégicos: registrar aprendizados, compartilhar práticas entre docentes, revisar materiais didáticos e, principalmente, manter o diálogo aberto. Quando a experiência não termina no último dia de atividade, ela deixa de ser exceção e começa a se tornar cultura.
Em um país como o Brasil, onde as desigualdades raciais ainda estruturam oportunidades e trajetórias, a escola tem um papel central. Não como único agente de transformação, mas como espaço privilegiado de formação crítica. As maratonas antirracistas mostram que, mesmo em ações concentradas, é possível plantar sementes importantes.
O desafio e a oportunidade estão em cultivá-las ao longo do tempo.
*Leo Bento é cofundador da Inaperê Consultoria, professor e doutorando em educação pela PUC-SP
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