A importância de desenvolver habilidades críticas em um mundo conectado onde a informação é abundante e acessível.
Juliana Zero* Publicado em 15/03/2026, às 06h00

A crescente hiperconexão dos jovens e a rápida evolução da inteligência artificial exigem que as instituições de ensino preparem os alunos para um mercado de trabalho em constante transformação, onde a habilidade de formular perguntas é tão importante quanto ter respostas.
A educação de qualidade se tornou um compromisso vitalício, com a necessidade de democratizar o acesso ao conhecimento e garantir que todos possam contribuir para a informação em evolução, refletindo um novo contrato social.
As metodologias ativas e o papel do professor como facilitador são essenciais para o aprendizado, enquanto a avaliação dos alunos deve se adaptar a novos modelos que considerem habilidades além das notas, preparando-os para um mundo que valoriza tanto as competências técnicas quanto as soft skills.
Vídeos curtos e uma avalanche de informação na palma da mão. Os jovens estão cada vez mais hiperconectados, enquanto a inteligência artificial transforma rapidamente as relações humanas e profissionais. Se antes o desafio da educação era encontrar a informação, hoje o dilema é saber o que fazer com o excesso dela. Em um mundo no qual a IA responde a qualquer pergunta em segundos, o verdadeiro diferencial já não está apenas em ter a resposta certa, mas em saber formular as perguntas.
No Dia da Escola, celebrado em 15 de março, é oportuno refletir sobre o papel das instituições de ensino na preparação dos alunos para um mundo em constante transformação. Quais habilidades nossos filhos e estudantes precisam desenvolver para prosperar em um mercado de trabalho que ainda está sendo inventado? Qual é o papel do inglês, por exemplo, em um cenário cada vez mais global e conectado?
Nos últimos anos, assistimos ao surgimento de profissões e tecnologias que redefiniram nossa forma de viver, aprender e trabalhar. Diante dessa aceleração, assegurar o direito a uma educação de qualidade deixou de ser um objetivo com data de término e passou a ser um compromisso para toda a vida. Como estabelece o Artigo 26 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a educação deve ser a base de um novo contrato social — um pacto que se amplia para garantir não apenas o acesso à escola, mas também o direito à informação, à cultura e à ciência.
Esse novo pacto nos convoca a democratizar o acesso ao acervo de conhecimento coletivo da humanidade, permitindo que cada indivíduo não apenas consuma informação, mas também contribua para esse saber em constante transformação. Preparar os alunos para esse mundo em mutação é mais do que uma missão pedagógica. É uma responsabilidade ética compartilhada entre famílias, educadores e gestores, com o objetivo de garantir que ninguém fique para trás.
Nesse contexto, não podemos negligenciar o papel ampliado que a educação passou a ocupar na sociedade. O modelo baseado na memorização de fórmulas e na centralidade das provas tradicionais tornou-se progressivamente obsoleto, perdendo sentido para as gerações Z e Alfa, que já desenvolvem seus próprios mecanismos de descoberta.
Por isso, o caráter interdisciplinar da escola e o uso de metodologias ativas tornam-se cada vez mais indispensáveis. Precisamos consolidar um modelo em que o aluno seja protagonista do processo de aprendizagem, convidado a mergulhar em temas, desenvolver suas percepções e compartilhá-las em sala de aula. Argumentar, defender ideias e gerar novas perguntas passa a ser parte central do processo educativo, alimentando o debate coletivo.
Ao professor desses novos tempos cabe uma tarefa estratégica: atuar como facilitador dessa jornada, estimulando o pensamento crítico, mediando discussões e assegurando o rigor histórico e científico enquanto o conhecimento é construído de forma colaborativa.
As formas de avaliação também devem passar por transformações nos próximos anos. Modelos que analisam o estudante para além de notas já fazem parte do processo de seleção de algumas das universidades mais respeitadas do mundo. Exames padronizados como o ACT (American College Testing) e o SAT (Scholastic Aptitude Test), exigidos por instituições como Harvard, Yale, MIT, Brown, Caltech e Georgetown, são métodos eliminatórios cada vez mais abrangentes, sendo que muitas universidades do exterior usam sistemas avaliatórios combinados. Nesse contexto, até a nota do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) pode contribuir para a admissão do estudante e somar pontos adicionais, ao lado de cartas de recomendação, ensaios pessoais e evidências de liderança comunitária.
Em um ecossistema cada vez mais conectado, a proficiência em outros idiomas deixou de ser um diferencial no currículo para se tornar uma competência essencial. No entanto, o Brasil ainda enfrenta desafios estruturais. Segundo o British Council, apenas 5% da população brasileira consegue manter uma conversa em inglês de forma eficaz. O índice global da EF confirma essa lacuna ao posicionar o país na 75ª colocação entre 123 nações avaliadas. Com média de 482 pontos, a proficiência brasileira é considerada suficiente apenas para tarefas básicas, como comunicações turísticas ou trocas simples de e-mails — algo abaixo do que se espera o mercado global.
A verdadeira chave não está apenas na gramática, mas na comunicação intercultural que permite a mobilidade de talentos e a liderança em ambientes de alta complexidade. A tecnologia pode nos dar velocidade, mas é a educação humanizada, crítica e intercultural que oferece direção.
Nesse cenário, as chamadas soft skills, como empatia, pensamento crítico, colaboração e adaptabilidade, tornam-se tão importantes quanto o conhecimento técnico na formação dos alunos.
O sucesso no amanhã dependerá de um equilíbrio delicado entre a agilidade técnica necessária para navegar algoritmos e a profundidade emocional para construir relações. Afinal, por mais digital que o mundo se torne, o valor real continuará residindo na nossa capacidade de conexão humana.
* Juliana Zero é Diretora da Franquias Ways Bilingual School.
Quer incentivar este jornalismo sério e independente? Você pode patrocinar uma coluna ou o site como um todo. Entre em contato com o site clicando aqui.