Mariana Kotscho
Busca
» GENTILEZA E GENEROSIDADE

Estamos educando para o futuro. Mas para qual futuro?

A importância de desenvolver competências socioemocionais para uma convivência mais harmônica e cidadã para o futuro

Marina Pechlivanis* Publicado em 27/06/2026, às 06h00

Precisamos formar pessoas comprometidas, prontas para olhar para o mundo e fazer a diferença. - Foto: Canva Pro
Precisamos formar pessoas comprometidas, prontas para olhar para o mundo e fazer a diferença. - Foto: Canva Pro

A educação para o futuro deve ir além da formação técnica, enfatizando a importância de habilidades sociais e comportamentos pró-sociais para enfrentar desafios contemporâneos como a crise climática e desigualdades sociais.

O Estudo EGG de Inovação Pró-Social em Escolas Brasileiras revela que práticas educacionais voltadas à gentileza e solidariedade estão presentes em diversas escolas, independentemente de seu desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

As iniciativas destacadas no Prêmio Educação para Gentileza e Generosidade mostram que a educação deve cultivar valores humanos e fortalecer vínculos, promovendo uma transformação social que vai além do mero aprendizado técnico.

Resumo gerado por IA

“Vivemos hoje o mundo das facilidades admiráveis (…) que reduzem cada vez mais a força da atenção, da capacidade mental e da duração. É o momento da ‘impaciência, da rapidez de execução, da variação brusca da técnica que apressa as obras’. Tempo da velocidade.”

Adauto Novaes, O futuro não é mais o que era

Falar de educação para o futuro imediatamente remete a novas profissões. E à ideia de estar preparado para ter sucesso em um mundo cada vez mais tecnológico e digitalizado. Cibersegurança, automação, machine learning, ciência de dados, engenharia robótica...

Mas de que adianta termos especialistas em tecnologias se perdermos a habilidade de estabelecer boas relações com as pessoas ao nosso redor?

Veja também

Não basta recorrer à ciência de dados para enfrentar a crise climática, às tecnologias de vigilância para reduzir a violência ou a instrumentos econômicos para mitigar desigualdades. Um desenvolvimento verdadeiramente integral só será efetivo se vier acompanhado de pensamento crítico, senso cívico e atitudes solidárias.

Todos esses desafios exigem dos educadores, das famílias e dos governos algo que raramente aparece nos rankings educacionais: comportamentos pró-sociais. A capacidade de cooperar, cuidar, respeitar, participar e agir em favor do bem comum. Precisamos formar pessoas comprometidas. Mais do que usuárias de ferramentas, pessoas prontas para olhar para o mundo e fazer a diferença.

Ao longo dos últimos anos, tive a oportunidade de acompanhar centenas de projetos inscritos no Prêmio Educação para Gentileza e Generosidade (EGG), iniciativa que reconhece práticas educacionais alinhadas aos valores da gentileza, generosidade, solidariedade, sustentabilidade, diversidade, respeito e cidadania.

Recentemente, a análise desse conjunto de experiências deu origem ao Estudo EGG de Inovação Pró-Social em Escolas Brasileiras, que sistematizou seis edições do prêmio e identificou tendências, prioridades e práticas de inovação pró-social em escolas públicas e privadas de diferentes regiões do Brasil.

O mais interessante não é observar os projetos vencedores isoladamente, mas o conjunto. Em seis edições, escolas de diferentes regiões do país compartilharam experiências em capitais, cidades médias, periferias, áreas rurais e pequenos municípios do interior. Esse mosaico revela um retrato pouco visível e muito emblemático da educação brasileira.

O levantamento mostra que essas práticas relacionais, criativas e inovadoras, voltadas à transformação da realidade das comunidades locais, aparecem em escolas de diferentes contextos e em diferentes patamares de desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). O que se destaca é o trabalho conjunto entre professores, alunos, famílias e comunidade escolar como fator decisivo para resultados sociotransformacionais mais consistentes, reforçando que indicadores tradicionais não dão conta, sozinhos, de explicar a qualidade das relações e das experiências formativas no cotidiano escolar.

Os resultados do Ideb ajudam a ilustrar esse cenário. Em 2023, o Brasil alcançou nota 6,0 nos anos iniciais do Ensino Fundamental, recuando para 5,0 nos anos finais e 4,3 no Ensino Médio. Os dados mostram avanços importantes, mas também indicam algo maior: à medida que os estudantes avançam na trajetória escolar, ganham peso dimensões que não cabem integralmente nas provas — pertencimento, convivência, saúde mental, propósito e participação social.

O conjunto dos projetos do Prêmio EGG Escola reforçam justamente isso: iniciativas de gentileza e generosidade florescem em escolas de todos os patamares de Ideb, com peso simbólico ainda maior onde os indicadores são mais frágeis.

Se os indicadores tradicionais mostram o que os estudantes aprendem, esses projetos ajudam a revelar o potencial de crianças e jovens quando o assunto é transformar — para melhor — as suas próprias realidades. Os temas, que raramente ocupam o centro das avaliações educacionais, são recorrentes: cultura de paz, saúde mental, diversidade, pertencimento, sustentabilidade, voluntariado, convivência, participação comunitária, respeito às diferenças e formação cidadã.

Essa percepção também encontra eco em diferentes políticas públicas e marcos educacionais que vêm ganhando força no Brasil e no mundo. Cada vez mais, fala-se em competências socioemocionais, cultura de paz, educação integral e participação cidadã. Em outras palavras, cresce a compreensão de que preparar crianças e jovens para a vida exige muito mais do que transmitir conhecimento: exige cultivar valores e fortalecer vínculos.

Tecendo uma conexão com meu livro Protagonismo Infantil e o Efeito Warm Glow: a educação para gentileza e generosidade no desenvolvimento de cidadãos mais conscientes e sociotransformadores (Editora Splendet/PUC-Campinas, 2025), retomo um conceito que me inquieta e fascina há muitos anos: quando fazemos algo que beneficia outras pessoas, criamos as condições para que esse gesto se multiplique e inspire novas atitudes. A ciência chama isso de warm glow. Mais do que uma sensação agradável, trata-se de uma resposta neurobiológica associada à ativação dos circuitos de recompensa do cérebro e à liberação de neurotransmissores relacionados ao prazer, ao vínculo social e ao bem-estar.

Talvez exista aí uma pista importante para a educação do futuro. Se a tecnologia transforma o mundo, a tecnologia social transforma as relações. E foi justamente essa inovação pró-social que encontramos nas escolas participantes do Estudo EGG: práticas que unem conhecimento e afeto, autonomia e corresponsabilidade, criatividade e compromisso com o bem comum. Afinal, educar para o futuro não é apenas preparar pessoas para usar as tecnologias que virão. É ajudá-las a desenvolver as capacidades humanas que inspiram, conectam e transformam coletivamente.

Gentileza é uma experiência. Generosidade é uma prática. Solidariedade é a certeza de que ninguém se realiza sozinho. Sustentabilidade é a consciência de que fazemos parte de algo maior. Diversidade é reconhecer a riqueza das diferenças. Respeito é transformar essa compreensão em convivência. E cidadania é compreender que o bem comum é uma corresponsabilidade coletiva.

O futuro será definido pelas relações que escolheremos construir. E as escolas vencedoras do Prêmio EGG mostram, na prática, que já não há mais tempo a perder: é urgente repensar métodos e práticas para uma educação mais humana, colaborativa e sociotransformadora.

*Marina Pechlivanis é escritora com mais de 20 títulos publicados, professora de pós-graduação, mestra em Comunicação e Práticas de Consumo, fundadora da Umbigo do Mundo e idealizadora da Educação para Gentileza e Generosidade.

Quer incentivar este jornalismo sério e independente? Você pode patrocinar uma coluna ou o site como um todo. Entre em contato com o site clicando aqui.