Cuidar da saúde, fazer escolhas conscientes e lutar contra o etarismo têm o poder de transformar a maturidade em um novo começo
Dra. Roberta França* Publicado em 18/08/2026, às 06h00

A sociedade está começando a mudar sua percepção sobre o envelhecimento feminino, permitindo que mulheres mais velhas reescrevam suas histórias e busquem novos propósitos, desafiando estereótipos que limitam suas ações após certa idade.
A autonomia na velhice é construída através de escolhas conscientes, como cuidar da saúde, manter vínculos sociais e aprender coisas novas, que são fundamentais para uma maturidade ativa e independente.
É essencial combater o etarismo e reconhecer que a idade não deve ser um fator limitante, mas sim uma oportunidade para que as mulheres continuem a fazer escolhas e a serem protagonistas de suas vidas.
Eu não tenho medo da palavra “velha”. Tenho medo de uma sociedade que ainda insiste em determinar o que uma mulher pode ou não pode fazer depois de determinada idade. Durante muito tempo, envelhecer para a mulher significou quase desaparecer. Como se, depois dos 50, 60 ou 70 anos, existisse uma espécie de roteiro silencioso dizendo como ela deveria se vestir, se comportar, amar, trabalhar e até sonhar.
Mas, alguma coisa está mudando... ainda bem!
Estamos vendo mulheres que chegam à maturidade dispostas a escrever a própria história. Mulheres que empreendem, voltam para a universidade, iniciam novos relacionamentos, viajam sozinhas, mudam de profissão, começam uma atividade física, aprendem coisas novas e descobrem novos propósitos. Isso não significa negar a velhice, muito pelo contrário. Significa entender que envelhecer não deveria ser sinônimo de deixar de viver.
Costumo dizer que ninguém dorme com 20 anos e acorda com 70. Existe uma vida inteira acontecendo entre essas duas idades. E é justamente durante essa vida que vamos construindo grande parte da longevidade que teremos. Por isso, quando falamos em autonomia na velhice, precisamos falar também das escolhas que fazemos hoje.
Cuidar da saúde física e mental, manter o corpo em movimento, preservar vínculos sociais, aprender coisas novas, ter projetos, cultivar relações saudáveis, cuidar da independência financeira e continuar tomando decisões sobre a própria vida são atitudes que ajudam a construir uma maturidade mais autônoma.
Mas existe uma escolha que considero ainda mais importante: não permitir que a idade determine antecipadamente os nossos limites. O etarismo muitas vezes chega disfarçado de cuidado.
“Você não tem mais idade para isso.”
“Pra que começar agora?”
“Não seria melhor ficar quietinha?”
São frases aparentemente simples, mas que podem retirar, pouco a pouco, o protagonismo de uma pessoa. E talvez isso seja ainda mais cruel para as mulheres, porque passamos boa parte da vida sendo cobradas para cumprir papéis: ser boa filha, boa profissional, boa esposa, boa mãe, boa cuidadora, e claro, ser bonita, magra e disposta!
Muitas chegam à maturidade depois de décadas cuidando de todo mundo e descobrem, finalmente, que também podem escolher cuidar de si. E isso não é egoísmo, é consciência!
Não existe idade certa para descobrir um novo propósito. Não existe prazo de validade para aprender, amar, empreender, mudar de ideia ou começar de novo.
É claro que envelhecer traz mudanças. O corpo muda, as necessidades mudam, algumas limitações podem aparecer. Defender uma velhice com autonomia não significa romantizar o envelhecimento nem fingir que essas transformações não existem.
Significa não transformar a idade, por si só, em incapacidade. É preciso parar de olhar para uma mulher de 60, 70 ou 80 anos e enxergar apenas os anos que ela viveu. Existe ali uma história, experiência, desejo, potência e, principalmente, o direito de continuar fazendo escolhas.
Talvez a grande revolução da longevidade feminina seja justamente essa: mulheres entendendo que podem ser protagonistas da própria história até o fim dela. Velho todos nós seremos, é a vida ...
A pergunta que realmente importa é outra: “Que tipo de velho você está escolhendo ser?”.
Porque longevidade não começa aos 60, aos 70 ou aos 80 anos. Longevidade é projeto de vida. E ela é construída pelas escolhas conscientes que fazemos todos os dias.
* Dra. Roberta França é médica Pós-graduada em Geriatria e Gerontologia e em Psiquiatria. Professora da ABRAZ (Associação Brasileira de Alzheimer) e palestrante de diversos temas na área da medicina geriátrica e psiquiátrica, além de idealizadora do projeto social Cantinho da Geriatria.
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