Não há mágica que transforme os padrões nocivos dos estereótipos de gênero aprendidos na infância em comportamentos saudáveis na vida adulta
Laura Hirata* Publicado em 03/04/2026, às 06h00

A desigualdade de gênero persiste no Brasil, com dados alarmantes sobre violência sexual e a predominância de mulheres em profissões de cuidado, refletindo um abismo na igualdade de gênero, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025.
Estudos indicam que estereótipos de gênero influenciam negativamente as crianças desde cedo, levando meninas a se sentirem menos capazes e a evitarem atividades consideradas brilhantes, enquanto a masculinidade é associada à dificuldade de expressar emoções.
Para enfrentar esses desafios, é crucial educar crianças sobre igualdade de gênero e desconstruir estereótipos, promovendo um ambiente onde meninos e meninas possam se desenvolver livremente, sem limitações impostas por normas sociais tradicionais.
Muito se fala de diversidade e inclusão no mundo adulto, especialmente em questões que envolvem trabalho — diferença salarial, evolução na carreira, cargos e funções. Com relação a aspectos mais chocantes, como a violência sexual, há um abismo ao se comparar, por exemplo, o crime de estupro: as vítimas do sexo masculino representaram 12,3% (contra 87,7% do sexo feminino), conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025.
Segundo a ONU, estamos a séculos de distância de alcançar a igualdade de gênero, mesmo com a criação de leis e políticas estabelecendo cotas, metas de igualdade, ampliação da licença paternidade, visibilidade do trabalho do cuidado etc.
Na corrente de quem defende a insuficiência dessas medidas, destaca-se que, além dos recordes que vêm sendo batidos dos subestimados números de estupro e de feminicídio, pela primeira vez na história, o machismo foi maior entre os mais jovens, conforme constatou a pesquisadora Laura Bates. Na mesma linha, estudo recente da Ipsos verificou que 31% dos homens da Geração Z acreditam que a esposa deveria obedecer seu marido (comparado com 13% dos homens da geração mais antiga chamada de Baby Boomer).
Ou seja, passou da hora de mobilizar a base piramidal da humanidade para gerar mudanças: as crianças! Afinal, é na infância que as habilidades sociais, emocionais, cognitivas e linguísticas são desenvolvidas.
Durante essa fase, encontramos os seguintes cenários:
Ultrapassando a herança cultural, um argumento que poderia justificar esse quase monopólio feminino na educação infantil seria o instinto supostamente materno. Supostamente porque, conforme descontruído no ensaio “Maternal Instinct Is a Myth That Men Created” publicado pelo The New York Times, pesquisas demonstram que a associação do instinto como algo inerente, automático e exclusivamente feminino não tem nenhuma base científica. Complementando, o The Guardian em “The Big Idea: Why the Maternal Instinct Is a Myth” esclarece que o cérebro parental se origina da experiência, bastando viver a parentalidade para possibilitar seu surgimento.
Um ponto delicado a ser tocado é o receio envolvendo o abuso sexual infantil. Ele sequer deveria existir, mas é um temor real. Sobre essa questão, algumas reflexões podem ser feitas: conscientização é a melhor forma de prevenção. Não falar sobre esse assunto e achar que as crianças estão protegidas pela ausência de contato masculino pode ser uma amarga ilusão. A premissa de que essa violência é praticada exclusivamente por homens é ingênua e mesmo misândrica. Ainda que a proporção e a intensidade sejam diferentes, é um crime que pode ser cometido por qualquer pessoa.
Ademais, não é na escola que essa violência costuma acontecer. A residência representou 67,9% dos locais de ocorrência de estupros de vulneráveis (que inclui crianças menores de 14 anos). O local que deveria ser o de maior segurança para uma criança é o mais inseguro, sendo a escola um ambiente relevante de assistência aos menores.
Educar é essencial porque não há local seguro e abusador não tem gênero.
Fato é que, independentemente da justificativa e de ela ser ou não pertinente, no âmbito do aprendizado pelo exemplo e/ou repetição, o estereótipo feminino é historicamente perpetuado nos trabalhos do cuidado, do ensino e do acolhimento, os quais, por sua vez, são realizados de forma precária, com baixa ou nenhuma remuneração (o que é ainda mais discrepante sob a perspectiva racial).
Diante da manutenção dessa conjuntura, meninos e meninas continuam tendo experiências diferentes na sala de aula pré-primária, mesmo tendo paridade no acesso ao ensino, conforme constatado pela UNICEF.
Como consequência, já aos 6 anos, as meninas se tornam menos propensas do que os meninos a associar brilhantismo com seu próprio gênero, bem como já começam a evitar atividades ditas como brilhantes, conforme evidenciado no artigo “Gender stereotypes about intellectual ability emerge early and influence children’s interests” publicado pela revista Science. Em outras palavras, os estereótipos de gênero influenciam desde cedo os interesses das crianças e limitam suas carreiras. O vídeo Redraw the Balance ilustra bem essa situação. Isso explica por que, mesmo em ambientes patriarcalmente femininos, como o de uma cozinha, 94% dos top chefs sejam homens (Chef´s Pencil) – estrelados e prestigiados!
Na outra ponta, também é fundamental incluir meninos e homens no mundo do coração. Pessoas do sexo masculino são mais associadas à alexitimia — dificuldade de nomear as emoções (conforme matéria do The Psychology Group). Como resultado, essa dificuldade pode se estender na diferenciação das emoções, bem como na forma de expressá-las. Talvez isso ajude a explicar por que 95% dos homicídios no mundo foram cometidos por homens (Global Study on Homicide 2013) e 93,5% das pessoas condenadas por abuso sexual nos EUA eram do sexo masculino (Sentencing Commission — dados de 2024). No Brasil, 93,4% dos adolescentes inseridos ao sistema socioeducativo nas modalidades de restrição e privação de liberdade são meninos (Sinase de 2025).
Vale lembrar que os casos Epstein, João de Deus e Saul Klein reforçam que não há distinção de raça ou classe social para abusador. Além disso, não se pode confundir o exercício ilimitado e desumanizado do poder com doença mental ou distúrbio psiquiátrico.
Embora soe primitivo, parece imprescindível reconhecer que o homo sapiens ainda precise evoluir para homo affectus. As crianças não nascem donas de casa, cuidadoras ou agressoras.
Educar envolve proteger — o que é diferente de desresponsabilizar ou alienar. Entender, reconhecer e desconstruir estereótipos de gênero pode ser a chave para quebrar a transmissão intergeracional desses padrões tão prejudiciais. Meninos e meninas deveriam ser livres para serem o que quiserem, inclusive sensíveis e brilhantes!
*Laura Hirata é graduada pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Trabalhou em grandes escritórios de advocacia e empresas listadas no Brasil e nos EUA.
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