Mariana Kotscho
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Mesmo sendo maioria nas urnas, mulheres ainda enfrentam barreiras para chegar ao poder

Ano eleitoral reacende debate sobre representatividade feminina e desafios que ainda afastam mulheres dos espaços de decisão

Redação* Publicado em 29/05/2026, às 06h00

Advogada com atuação especializada em Direito Eleitoral, Dra. Paula Cosini, explica as barreras que mulheres enfrentam
Advogada com atuação especializada em Direito Eleitoral, Dra. Paula Cosini, explica as barreras que mulheres enfrentam

Apesar de representarem 53% do eleitorado, as mulheres ocupam uma fração reduzida dos cargos políticos no Brasil, evidenciando uma desigualdade persistente que se intensifica em ano eleitoral.

Entre 2018 e 2024, apenas 34% das candidaturas foram femininas, com apenas 17% resultando em eleição, refletindo barreiras históricas e culturais que limitam a participação efetiva das mulheres na política.

Embora tenham sido implementadas medidas como a cota de gênero e a tipificação da violência política, especialistas afirmam que é necessário um esforço coletivo para transformar a cultura política e garantir a representatividade feminina de forma efetiva.

Resumo gerado por IA

Embora representem cerca de 53% do eleitorado brasileiro, as mulheres seguem ocupando uma parcela significativamente menor dos cargos políticos no país. Em um cenário que ganha ainda mais relevância em ano eleitoral, a discussão sobre participação feminina, igualdade de oportunidades e combate à violência política volta ao centro do debate democrático. De acordo com a advogada com atuação especializada em direito eleitoral, Dra. Paula Cosini, os números revelam um contraste preocupante entre a força feminina nas urnas e sua presença nos espaços de poder.

"Os dados divulgados pela plataforma TSE Mulheres mostram que, entre 2018 e 2024, apenas 34% das candidaturas foram femininas e, dentre essas, somente 17% resultaram em eleição. Isso evidencia que a desigualdade estrutural ainda permanece fortemente presente na sociedade brasileira," afirma ela.

Segundo a advogada, apesar dos avanços legislativos conquistados nas últimas décadas, a baixa representatividade feminina reflete barreiras históricas, culturais e institucionais que continuam dificultando o acesso das mulheres à vida política. Um dos pontos destacados pela advogada é a diferença entre participação formal e participação efetiva. Embora a legislação eleitoral determine que os partidos observem o percentual mínimo de 30% e máximo de 70% de candidaturas de cada gênero nas eleições proporcionais, o aumento do número de mulheres concorrendo nem sempre se traduz em maior representatividade.

"A legislação não estabelece uma cota exclusiva para mulheres, mas uma cota de gênero. Inclusive, é possível que um partido apresente até 70% de candidaturas femininas. O problema é que muitas vezes a ampliação quantitativa não vem acompanhada de apoio financeiro, estrutura partidária e condições reais de campanha," explica.

A situação se torna ainda mais delicada diante da existência das chamadas candidaturas fictícias, popularmente conhecidas como "candidaturas laranjas," utilizadas apenas para cumprir formalmente a exigência legal. A profissional destaca que, quando uma candidatura feminina é registrada sem intenção real de disputa, a política afirmativa perde sua essência. A mulher deixa de ser protagonista e passa a ocupar um espaço meramente burocrático.

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Para Dra. Paula Cosini, as dificuldades enfrentadas pelas mulheres vão muito além das questões eleitorais e estão diretamente ligadas à organização social. "É como uma corrida em que os competidores não largam do mesmo ponto. Enquanto muitos homens contam com estrutura consolidada, apoio partidário e liberdade para dedicar-se integralmente à campanha, diversas mulheres precisam conciliar a disputa eleitoral com responsabilidades domésticas, cuidado com filhos e outras demandas familiares," compara.

Além disso, fatores como menor acesso a financiamento, estruturas partidárias predominantemente masculinas e dificuldade de inserção nos espaços de decisão contribuem para ampliar as desigualdades.

Outro obstáculo relevante é a violência política de gênero, tipificada no Código Eleitoral desde 2021. A especialista explica que a violência pode ocorrer de diversas formas, incluindo ataques à capacidade intelectual da mulher, comentários ofensivos sobre aparência física ou maternidade, disseminação de notícias falsas, assédio moral, perseguições e exclusão deliberada de espaços de decisão. Ela ressalta que muitas dessas práticas são naturalizadas sob o argumento de que a política é um ambiente de confronto. No entanto, quando a agressão ocorre pelo simples fato de a pessoa ser mulher, estamos diante de uma violência que ameaça a democracia e restringe direitos fundamentais.

"A violência política funciona como um mecanismo de exclusão. Ela afasta mulheres dos espaços de poder e desencoraja novas lideranças femininas a ingressarem na vida pública,” afirma.

Nos últimos anos, o Brasil avançou na criação de mecanismos para fortalecer a participação feminina. Entre as principais medidas estão a consolidação da cota de gênero nas candidaturas, a tipificação da violência política contra a mulher e a obrigatoriedade de destinação de recursos partidários e eleitorais para candidaturas femininas. Além disso, iniciativas institucionais do Tribunal Superior Eleitoral, como o TSE Mulheres, a Ouvidoria da Mulher e observatórios voltados à proteção dos direitos políticos femininos, vêm ampliando a fiscalização e o combate às fraudes. Apesar disso, Dra. Paula acredita que a transformação necessária vai além da legislação. Para ela, é fundamental que essa pauta ultrapasse os espaços institucionais e alcance escolas, meios de comunicação, partidos políticos e a sociedade como um todo.  Em um período em que o país se prepara para novas disputas eleitorais, a discussão sobre representatividade feminina surge não apenas como uma questão de justiça social, mas também como um elemento essencial para o fortalecimento da democracia brasileira.

*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres