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Enquanto sonho com poesia e escrevivência para as mulheres, a pauta da sobrevivência nos atravessa

A literatura se torna um espaço seguro para mulheres, promovendo a poesia, leitura e a escrita como formas de cidadania

Fabiana Grieco* Publicado em 20/03/2026, às 06h00

Fabiana Grieco
Fabiana Grieco: mãe, escritora e professora universitária. - Foto: Assessoria

O aumento da participação feminina na leitura e escrita reflete um movimento de empoderamento, com 49% das mulheres se declarando leitoras e 62% das compradoras de livros sendo do sexo feminino, destacando seu papel central na promoção da literatura.

A prática da 'escrevivência', proposta pela escritora Conceição Evaristo, permite que mulheres negras compartilhem suas histórias, evidenciando a importância da escrita como forma de resistência e expressão cultural.

Apesar dos avanços, a violência contra mulheres continua alarmante, com 50 mil mortes registradas em 2024, o que reforça a urgência de ações sociais e culturais, como o Levante do 8M, para garantir direitos e promover a paz e a sobrevivência das mulheres.

Resumo gerado por IA

O cenário para a conquista de direitos das mulheres é complexo e desafiador, mas temos um alento do ponto de vista da literatura: observamos um movimento crescente de mulheres que passam a enxergar na leitura e na escrita um lugar para chamar de seu.

De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024, 49% das mulheres se declaram leitoras, acima dos 44% dos homens. Além disso, 62% das pessoas que compraram mais de dez livros no último ano foram mulheres, conforme revela o estudo Panorama do Consumo de Livros 2025, da Nielsen BookData. O protagonismo feminino está também na aquisição dos livros e no incentivo ao hábito da leitura.

Em soma à constatação de que as mulheres são aquelas que mais se interessam por livros, é possível afirmar que sua participação também se destaca na cena da escrita. Gosto muito do termo cunhado pela escritora brasileira Conceição Evaristo, “escrevivência”, que une "escrita" e "vivência", para, grosso modo, definir uma prática literária por meio da qual mulheres negras contam suas próprias histórias, baseadas em suas experiências e nas de suas ancestrais.

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Por esse fio condutor, observamos a trajetória de mulheres que buscam se expressar e, para tanto, recorrem à escrita, o que consiste em um ato de resistência e memória dessas populações. Para além do contexto das Letras, que se desenha como uma espécie de oásis, acolhendo mulheres leitoras, incentivadoras dos livros, escritoras publicadas e não publicadas, cabe a reflexão sobre a possibilidade do exercício da cidadania e da garantia de direitos - e da vida.

Se é no dia 08 de março (8M) que as mulheres são, em sua maioria, celebradas pelas conquistas em diversos campos de atuação, é preciso que essa comemoração nos leve ao resgate histórico dos acontecimentos naquela data, em 1917, na Rússia, quando milhares de mulheres se reuniram para reivindicar melhores condições de vida e de trabalho. O episódio da Marcha das Mulheres de Petrogrado, que ocorreu no período da Primeira Guerra Mundial, ficou conhecido como “Pão e Paz”.

Absurdo pensar que, enquanto me vejo no sonho da paz, sobretudo no exercício da escrita e da vivência, volte à baila a questão da própria sobrevivência. Não posso deixar de ressaltar a informação do relatório Femicide 2025, divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e ONU Mulheres, que 50 mil mulheres e meninas foram mortas por parceiros íntimos ou familiares em 2024. Isso representa uma morte a cada 10 minutos.

No Brasil, acompanhamos uma alarmante escalada de crimes de ódio contra as mulheres, que vão do assédio à morte, passando pelo estupro individual ou coletivo, a exemplo do que foi divulgado na mídia, no início do mês de março, sobre o caso envolvendo quatro homens contra uma garota de 17 anos em Copacabana, região nobre do Rio de Janeiro.

Como mulher, mãe e escritora, parece urgente que alcancemos “Pão e Paz” em outras esferas sociais no contemporâneo, seja pela “escrevivência” diária, seja pelas pautas reunidas para o Levante convocado para este 8M de 2026, empunhando nossas expressões ditas, escritas, demonstradas com nossos corpos. Levarei minha poesia e nossa vontade de sobreviver, viver e ser.

*Fabiana Grieco é mãe, escritora e professora universitária. Jornalista, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC – SP e doutora em Ciências da Comunicação pela USP. Autora dos livros de poesia Bom amar (Editora Urutau, 2025), Aquela que vejo pelo espelho (Editora Urutau, 2024) e Uma mãe melhor do que eu (Caravana Grupo Editorial, 2023), tradu­zido para o espanhol. Organizadora da antologia Um ventre todo seu (Editora Urutau, 2025). Publicou os livros da Série Universitária Entrevista jornalística: fontes, estratégias e conteúdo (Editora Senac São Paulo, 2025), Linguagens e formatos jornalísticos (Editora Senac São Paulo, 2025) e Comunicação na sociedade contemporânea conectada (Editora Senac São Paulo, 2023). Autora de cinco livros para a infância, entre os quais Colar de contas (Editora Jaguatirica, 2019), selecionado pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo para o acervo de escolas e bibliotecas da Rede Municipal de Ensino em 2022.

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