O reconhecimento social das estruturas de acolhimento no Carnaval de 2026 evidencia a transformação cultural e institucional no combate ao assédio
Ana Addobbati* Publicado em 06/03/2026, às 06h00

O Carnaval de 2026 marcou um avanço significativo no combate à importunação sexual, com a implementação de campanhas educativas e protocolos legais que uniram sociedade civil e governo, transformando o assédio em uma questão de política pública estruturada.
Historicamente, o assédio em festas era minimizado como parte da cultura do Carnaval, mas a edição de 2026 reafirmou que os direitos fundamentais devem ser respeitados, refletindo uma mudança de percepção social e institucional sobre o tema.
Medidas como a consolidação da Lei Federal do 'Não é Não' e a criação de estruturas de acolhimento em diversos estados demonstraram um compromisso contínuo, com a expectativa de que a prevenção ao assédio se torne uma parte permanente da organização de eventos, não apenas uma ação temporária.
O Carnaval de 2026 não foi apenas mais uma edição da maior festa popular do país. Ele marcou um ponto de inflexão no enfrentamento à importunação sexual nos espaços públicos. Pela primeira vez, campanhas educativas, protocolos legais e estruturas de acolhimento operaram de forma articulada entre sociedade civil e poder público em diferentes estados. O combate ao assédio começa, finalmente, a ser tratado como política pública estruturada, e não como ação pontual de conscientização.
Durante anos, o assédio em festas foi relativizado como “excesso”, “brincadeira” ou parte da cultura da folia. A naturalização da violência sempre encontrou abrigo na ideia de que o Carnaval suspende regras sociais. O que vimos em 2026 foi o oposto: a reafirmação de que direitos fundamentais não entram em recesso.
Em 2018, quando coletivos feministas ocuparam blocos com cartazes e campanhas sob o lema “Não é Não”, éramos sociedade civil tentando dar resposta a uma realidade de violência naturalizada. O que testemunhamos agora é o Estado assumindo que essa é uma agenda estrutural de direitos humanos.
A consolidação da Lei Federal do “Não é Não”, sancionada em 2023, criou obrigações claras para organizadores de eventos com venda de bebida alcoólica. O Ministério das Mulheres promoveu campanha nacional de divulgação do Ligue 180. Dezoito estados aderiram a pactos formais para implementação de protocolos durante o Carnaval. Esse alinhamento institucional representa uma mudança simbólica e prática.
Em São Paulo, atuamos pelo terceiro ano consecutivo em parceria com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos na implementação do protocolo “Não Se Cala”. Estivemos em sete blocos de rua, no Sambódromo do Anhembi e junto à UESP, ampliando o alcance para territórios periféricos e escolas de bairro. Mas o dado mais significativo deste ano não foi apenas a presença das equipes, foi o comportamento do público.
Mulheres passaram a procurar espontaneamente os pontos de acolhimento. Houve foliãs que conduziram outras mulheres desacordadas ou em situação de vulnerabilidade até nossas equipes. Isso demonstra reconhecimento social do equipamento como serviço de proteção. Quando a própria população identifica, confia e utiliza essa estrutura, estamos diante de uma política pública que começa a se enraizar.
Outro eixo relevante foi a associação entre prevenção e turismo. Pelo segundo ano consecutivo, a política do “Não é Não” contou com apoio da Embratur, inserindo o enfrentamento ao assédio também na estratégia de promoção internacional do Brasil como destino turístico. Um país que comunica compromisso com a segurança das mulheres está comunicando responsabilidade institucional.
Nossa atuação também esteve presente em Olinda, uma das maiores concentrações de foliões do país. A experiência reforçou que a demanda por prevenção existe em qualquer região. Quando há estrutura, as mulheres utilizam. Isso evidencia que prevenção precisa ser parte da organização da festa, não um complemento.
Levamos quase uma década para sair da mobilização da sociedade civil e alcançar a consolidação de uma política estruturada. O Carnaval de 2026 mostra que é possível transformar cultura institucional. Mas o desafio agora é garantir continuidade.
O enfrentamento ao assédio não pode acontecer apenas durante a folia. Protocolos, fluxos de atendimento e estruturas de acolhimento precisam ser permanentes. Se 2018 foi o ano da mobilização, 2026 pode ser lembrado como o ano da institucionalização.
E institucionalizar direitos é o que garante que eles deixem de depender apenas da resistência das mulheres para se tornarem compromisso do Estado.
* Ana Addobbati é presidente do Instituto Livre de Assédio
Quer incentivar este jornalismo sério e independente? Você pode patrocinar uma coluna ou o site como um todo. Entre em contato com o site clicando aqui.