Cada ato de resistência é fundamental para combater a violência e manter o que foi conquistado até então pelas mulheres
Monalisa Nascimento dos Santos Barros* Publicado em 01/07/2026, às 06h00

O Brasil enfrenta um momento paradoxal de conquistas e retrocessos em relação aos direitos das mulheres, com um aumento alarmante nos casos de feminicídio, que atingiu 1.568 registros em 2025, o maior desde a tipificação do crime em 2015.
Esse crescimento da violência de gênero reflete uma reação conservadora contra a autonomia feminina, evidenciada por uma cultura de masculinidade que busca reafirmar papéis tradicionais, enquanto a violência doméstica se torna cada vez mais comum e banalizada.
Para combater essa situação, é fundamental que as mulheres continuem a denunciar e resistir, utilizando recursos como a Central de Atendimento à Mulher e outras redes de apoio, além de promover uma cultura de escuta e acolhimento entre as pessoas ao redor.
Nunca estivemos tão livres. Nunca estivemos tão ameaçadas. As duas frases são verdadeiras — e é isso que torna este momento tão vertiginoso.
Nos últimos anos, ampliamos enormemente nossos direitos sexuais e reprodutivos. Assumimos lugares de poder. Tornamo-nos mais autônomas nos nossos desejos, na nossa vida sexual, na decisão de permanecer ou não numa relação. Assumimos a chefia dos lares e as decisões sobre os nossos filhos. Vimos surgir recursos anticoncepcionais cada vez mais diversos, tratamentos para os sintomas da menopausa e da perimenopausa, recursos dermatológicos e estéticos que nos devolveram o direito de envelhecer como quisermos — ou de simplesmente não envelhecer aos olhos dos outros. Crescemos na adesão aos exercícios físicos e à alimentação saudável. Temos mulheres de sessenta anos que parecem as de quarenta de duas décadas atrás. Conquistamos espaços de trabalho mais equitativos, lugares mais respeitados, menos interrupções na nossa fala. Nossa voz passou a ser mais reconhecida.
Parecia que caminhávamos, enfim, para um lugar mais justo.
E então veio a reação.
Uma onda extremamente forte e conservadora nos convoca a voltar. Voltar para a casa, para os filhos, para a comida, para o quintal. Como se tudo o que construímos fosse um desvio que precisa ser corrigido. Vemos homens se engajando em grupos de discussão sobre como exercer sua masculinidade — encontros para subir montanhas com os "lendários", enquanto, do outro lado da mesma história, cresce uma epidemia que já não pode ser ignorada.
A violência de gênero. A violência doméstica. E o seu desfecho mais brutal: o feminicídio.
Em 2025, o Brasil registrou 1.568 feminicídios — o maior número desde que a lei foi criada, em 2015. Um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. São quatro mulheres assassinadas por dia simplesmente por serem mulheres. Desde março de 2015, quando o feminicídio foi tipificado como crime hediondo, pelo menos 13.703 mulheres já foram mortas por sua condição de ser mulher neste país.
Os números são tão assustadores quanto a banalidade com que os recebemos. E não se trata apenas da morte: antes dela, quase sempre, houve violência psicológica, violência patrimonial, negligência, violência física. Muitas vezes dentro de relações afetivas e amorosas. Muitas vezes com os filhos presenciando. Muitas vezes com os pais também.
O feminicídio não é um fenômeno brasileiro. É um tema que ocupa a pauta de muitos países, sendo objeto de estudo da Organização Mundial da Saúde. É um retrocesso global — uma reação organizada contra a autonomia que conquistamos. Como a resistência de quem está perdendo privilégios. De homens que precisam ressignificar seus papéis de parceiros e de pais, encontrar um novo lugar, negociar uma divisão mais justa do trabalho doméstico e parental.
Mas o que se vê, em vez disso, é violência. A tentativa de nos silenciar pelo medo. De nos fazer recuar pelo terror.
É preciso resistir. É preciso confiar que este momento — por mais brutal que pareça — é o esperneio do peixe que foi tirado do mar. Ele se debate porque sabe que o mundo mudou, e não há volta. Mas se não nos mantivermos fortes e firmes, perderemos os direitos que conquistamos. E reafirmaremos uma tendência fundamentalista e conservadora que avança em todo o mundo.
Cada denúncia é um ato de resistência. Cada mulher que rompe o silêncio enfraquece a estrutura que sustenta essa violência. Cada vez que uma de nós diz "basta", abrimos caminho para que outras também digam.
Se você está em situação de violência ou conhece alguém que esteja:
Se a violência ainda não é física, mas já é psicológica, patrimonial ou moral: também é crime. Também é violência. Também merece ser denunciada. Você não precisa esperar o pior acontecer.
Se você convive com uma mulher que está em situação de violência: ofereça escuta sem julgamento. Pergunte do que ela precisa. Guarde documentos importantes num lugar seguro. Anote contatos da rede de apoio. E, principalmente, não a abandone — o isolamento é a principal arma do agressor.
Nenhuma de nós está sozinha. E nenhuma de nós deveria precisar ser corajosa para simplesmente existir. Mas, enquanto for preciso, que sejamos. Juntas.
* Monalisa Nascimento dos Santos Barros é psicóloga, Professora Titular dos cursos de Medicina e de Psicologia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e Docente do corpo permanente dos programas de Mestrado Profissional de Psicologia da Saúde IMS CAT/UFBA e de Saúde da Família FIOCRUZ/UFBA. Também é mestre pela University of Exeter, doutora em Estudos da Subjetividade pela Universidade Federal Fluminense e realizou pós-doutorado em Saúde Mental Perinatal pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra em Portugal.
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