Psicóloga explica como a violência emocional afeta a autoestima das mulheres, por que romper ciclos abusivos pode ser difícil e como oferecer apoio
Redação* Publicado em 07/08/2026, às 06h00

A violência contra a mulher abrange não apenas agressões físicas, mas também formas de abuso psicológico, moral, patrimonial e sexual, que afetam profundamente a saúde mental das vítimas. Durante o Agosto Lilás, especialistas destacam a importância de reconhecer esses sinais silenciosos que comprometem a autoestima e o bem-estar emocional das mulheres.
A violência psicológica, muitas vezes disfarçada como cuidado ou ciúme, pode ser difícil de identificar e leva a um ciclo de dependência emocional, onde a vítima se sente culpada e insegura. O fenômeno do gaslighting, que faz a mulher duvidar de sua própria percepção, é um exemplo de manipulação comum em relacionamentos abusivos.
Familiares e amigos desempenham um papel crucial no apoio às vítimas, devendo oferecer ajuda sem julgamentos e respeitar o tempo necessário para que a mulher tome decisões. A reconstrução da autoestima após a violência é um processo que pode ser facilitado por terapia, ajudando as mulheres a recuperar sua identidade e autonomia.
A violência contra a mulher nem sempre deixa marcas visíveis. Embora a agressão física seja uma das formas mais conhecidas de violência doméstica, existem outros tipos de abuso que podem causar impactos profundos na saúde mental, como a violência psicológica, moral, patrimonial e sexual.
Durante o Agosto Lilás, campanha de conscientização pelo fim da violência contra a mulher, especialistas reforçam a importância de reconhecer sinais que muitas vezes são silenciosos, mas que comprometem a autoestima, a autonomia e o bem-estar emocional da vítima.
Segundo a psicóloga Letícia de Oliveira, compreender a dinâmica dos relacionamentos abusivos é fundamental para acolher mulheres que vivem essa realidade.
"A violência psicológica costuma acontecer de forma gradual. Muitas vezes, a mulher não percebe inicialmente que está em uma relação abusiva porque as atitudes de controle, desvalorização e manipulação vão sendo incorporadas aos poucos na rotina. Quando ela percebe, sua autoestima e sua confiança já podem estar profundamente afetadas", explica.
A violência psicológica envolve comportamentos que causam sofrimento emocional, como humilhações, ameaças, críticas constantes, controle sobre amizades, roupas, trabalho ou decisões pessoais.
Diferentemente de uma agressão física, esse tipo de violência pode ser mais difícil de identificar, principalmente porque muitas situações são justificadas pelo agressor como demonstrações de cuidado, ciúme ou preocupação.
"A mulher pode começar a acreditar que está exagerando, que é culpada pelos conflitos ou que precisa mudar seu comportamento para evitar problemas. Esse processo enfraquece a percepção que ela tem sobre si mesma e sobre seus próprios limites", afirma Letícia.
Um dos mecanismos psicológicos frequentemente presentes em relações abusivas é o gaslighting, uma forma de manipulação em que o agressor faz a vítima duvidar da própria memória, sentimentos e percepção da realidade.
"O gaslighting acontece quando a pessoa é constantemente levada a questionar aquilo que viveu ou sentiu. Frases como 'você está imaginando coisas', 'você é muito sensível' ou 'isso nunca aconteceu' podem fazer com que a vítima perca a confiança no próprio julgamento", explica a psicóloga.
A violência doméstica frequentemente segue um padrão conhecido como ciclo da violência, formado por fases que podem se repetir ao longo do relacionamento.
Esse ciclo geralmente envolve um período de tensão crescente, seguido pelo episódio de agressão e, posteriormente, uma fase de reconciliação, quando o agressor demonstra arrependimento e promete mudanças.
"Muitas mulheres permanecem em relações abusivas porque existe um vínculo emocional construído dentro desse ciclo. Após momentos de agressão, podem surgir pedidos de desculpas, promessas de mudança e períodos de aparente tranquilidade, criando esperança de que a situação será diferente", destaca.
A dependência emocional também pode contribuir para a dificuldade de romper o relacionamento, especialmente quando a vítima está isolada da rede de apoio ou teve sua autoestima reduzida ao longo do tempo.
"A dependência emocional não significa falta de força ou escolha da mulher. Ela é resultado de uma dinâmica psicológica complexa, em que medo, insegurança, culpa e esperança se misturam. Por isso, o acolhimento é tão importante", afirma Letícia.
Familiares e amigos têm um papel essencial na identificação e no apoio às vítimas. Porém, a forma como essa ajuda é oferecida pode fazer diferença.
A psicóloga orienta que o primeiro passo seja ouvir sem julgamentos.
"Perguntas como 'por que você ainda está nessa relação?' ou 'por que não foi embora antes?' podem aumentar a culpa e o isolamento da vítima. O mais importante é demonstrar que ela não está sozinha e que existe apoio para buscar ajuda", orienta.
Também é importante respeitar o tempo da mulher e evitar pressioná-la a tomar decisões imediatas.
"A saída de um relacionamento abusivo precisa ser construída com segurança. Muitas mulheres precisam organizar questões emocionais, financeiras e familiares antes de conseguir romper esse ciclo", explica.
Oferecer informações sobre serviços de apoio, incentivar acompanhamento psicológico e manter uma presença acolhedora são atitudes que podem ajudar no processo de recuperação.
Os impactos emocionais da violência doméstica podem permanecer mesmo após o fim da relação. Ansiedade, medo, culpa, dificuldade de confiar novamente e baixa autoestima são consequências frequentes.
"O processo terapêutico ajuda a mulher a reconstruir sua identidade, recuperar a confiança em si mesma e compreender que a violência sofrida não define quem ela é. O objetivo é fortalecer sua autonomia e sua capacidade de fazer escolhas", afirma a psicóloga.
A especialista destaca que falar sobre violência doméstica é uma forma de prevenção e conscientização.
"Quando uma mulher entende que determinadas atitudes não são amor, cuidado ou proteção, mas sim formas de controle e abuso, ela consegue reconhecer melhor a situação em que está vivendo e buscar apoio", ressalta.
Para Letícia de Oliveira, o Agosto Lilás reforça a importância de uma sociedade mais preparada para acolher e proteger mulheres em situação de violência.
"A violência psicológica precisa ser levada a sério. Nem todo sofrimento aparece em forma de marcas físicas, mas todo abuso causa impactos. Escutar, acolher e orientar pode ser o primeiro passo para transformar uma história", conclui.
*Edição por Lina Santiago
Quer incentivar este jornalismo sério e independente? Você pode patrocinar uma coluna ou o site como um todo. Entre em contato com o site clicando aqui.