Entenda a importância dos álbuns de figurinhas na infância e como eles promovem interação e pertencimento
Célia Bastos* Publicado em 16/04/2026, às 06h00

A tradição de colecionar figurinhas durante a Copa do Mundo no Brasil, que remonta ao início do século XX, mobiliza não apenas crianças, mas também famílias, promovendo interações sociais e um sentimento de pertencimento.
Dados da consultoria Circana indicam que, na última Copa em 2022, as vendas de álbuns e figurinhas representaram 12% do faturamento do setor de brinquedos no Brasil, refletindo uma mudança de comportamento em relação aos colecionáveis, que cresceram 32% em 2025.
A atividade de colecionar figurinhas se destaca por oferecer uma experiência física e interativa, criando laços familiares e um senso de comunidade, especialmente durante eventos como a Copa do Mundo, que intensificam essa prática cultural.
Começar um álbum de figurinhas é sempre um pequeno ritual. O som do pacote abrindo, a curiosidade de ver o que está ali dentro, e emoção de encontrar uma figurinha prateada ou especial, e a separação quase mecânica entre as repetidas e as que faltavam. No recreio, isso se desdobra em negociação. Em casa, se torna um projeto coletivo, com pais e mães acompanhando o andamento do álbum. Uma dinâmica que se sustenta menos pelo objeto e mais pelo que ele mobiliza.
A Copa do Mundo traz consigo a brincadeira de colecionar, uma experiência centenária no Brasil, já que o primeiro álbum começou a circular por aqui no início dos anos 1900. Para alguns, significa o começo de uma jornada de suspense, disputa e até frustração. Para outros, é pura nostalgia.
Os números ajudam a dimensionar essa força, ainda que não expliquem tudo. De acordo com a Circana, consultoria global de dados, na última edição da Copa, em 2022, as vendas de álbuns e figurinhas, nos meses que antecederam o evento, chegaram a representar 12% do faturamento do setor de brinquedos no Brasil em setembro, influenciando o desempenho da categoria como um todo. Mas os colecionáveis em geral são um sucesso crescente. Em 2025, avançaram 32% e passaram a responder por 19% do mercado. O que esses dados sugerem não é apenas um pico sazonal, mas uma mudança consistente de comportamento.
Parte dessa mudança está na forma como o brincar passa a incorporar elementos de pertencimento. Trocar figurinhas faz parte das experiências de negociação na infância. Não se trata apenas de buscar o que falta, mas de interagir, argumentar, estabelecer relações de valor. Ao mesmo tempo, completar um álbum carrega um sentido de conquista que vai além do momento imediato, criando continuidade e engajamento ao longo do tempo. Ou seja, um álbum completo será uma relíquia no futuro. Assim, a própria jornada com o álbum da copa se torna uma memória colecionável. Ao mesmo tempo, isso diz menos sobre acumular e mais sobre participar e pertencer.
Esse aspecto ajuda a explicar por que a atividade também impacta pais e mães. Em um cotidiano marcado por telas, o álbum oferece uma experiência diferente. Porque é físico, compartilhado, exige tempo e interação direta. Não como uma oposição ao digital, mas como um espaço onde o vínculo se constrói de outra forma, mais concreta e menos fragmentada.
Há ainda um movimento mais amplo em curso. O avanço dos colecionáveis não se restringe ao universo infantil e dialoga com a expansão de comunidades de fãs e consumidores adultos que encontram no ato de colecionar uma forma de expressão e identidade, provando que brincar pode ser um verbo conjugado por todas as idades.
Nesse contexto, a Copa do Mundo funciona como amplificadora. Ela concentra atenção, mobiliza redes de troca e intensifica um hábito que já vinha se fortalecendo. Comprar figurinhas pode ser um hábito comum há mais de um século, mas se torna um fenômeno quando conecta brasileiros a sua paixão pelo futebol. Sobretudo, esse tipo de brincadeira faz sucesso pelo que traz no presente: conexão, interação e construção de sentido coletivo. E na sua casa, qual a brincadeira que mais mobiliza as crianças durante a copa?
* Célia Bastos é diretora executiva da Circana
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